Gastrenterologia – Saiba mais

     

    As informações que se seguem têm como objetivo apenas um breve esclarecimento geral, não substituindo a consulta e aconselhamento com o seu médico.

    Abcesso

    Bolsa de pus delimitada formada no interior de um tecido em consequência de uma inflamação; pode apresentar, dependendo da localização, por exemplo no abcesso perianal, drenagem espontânea com saída de pús, e estar ou não associado a fístula. Pode surgir isoladamente ou em relação com patologias intestinais, em particular a Doença de Crohn. Ver Doença de Crohn.

    Acalásia

    A Acalásia é uma doença do esófago e que é caracterizada por uma incapacidade de abertura da “válvula” de saída do órgão (que comunica com o estômago) quando engolimos ou seja pela ausência de relaxamento do esfíncter esofágico inferior à deglutição.

     

    Tubo digestivo, localização e funções do esófago

    O tubo digestivo é muito extenso, sendo constituído por numerosas porções. Uma delas é o esófago, que é basicamente uma estrutura em forma de tubo oco (que pode apresentar um comprimento de 18-26cm) com capacidade de se contrair, e que é responsável por transportar os alimentos da boca ao estômago. Para executar essa tarefa ele possuí várias propriedades e características. As mais importantes são a existência de 2 “válvulas” designadas por esfíncteres; a primeira encontra-se na entrada do órgão, junto à boca, e abre-se quando engolimos os alimentos. A segunda encontra-se no final do esófago e serve de comunicação com o estômago, abrindo ou relaxando quando engolimos. Esta “válvula” designa-se por esfíncter esofágico inferior. Uma outra propriedade particularmente importante do esófago é sua capacidade de conduzir os alimentos através dele possuindo para isso uma capacidade de se contrair e empurrar os alimentos da entrada à saída, isto é: da boca ao estômago. Estes movimentos designam-se por peristálticos. Em resumo: após engolirmos os alimentos o esófago abre a sua entrada superior (ou esfíncter esofágico superior), e conduz os alimentos até à “válvula” de saída (ou esfíncter esofágico inferior), que se abriu ou relaxou quando engolimos, permitindo a entrada dos alimentos no estômago. A Acalásia é uma doença que afecta exclusivamente o esófago embora, como veremos adiante possa, eventualmente provocar complicações em outros órgãos.

     

    O que é verdadeiramente a Acalásia

    A Acalásia é uma doença do esófago e que é caracterizada por uma incapacidade de abertura da “válvula” de saída do órgão (que comunica com o estômago) quando engolimos ou seja pela ausência de relaxamento do esfíncter esofágico inferior à deglutição. Associadamente o esófago é incapaz de se contrair e movimentar os alimentos da sua entrada à saída ou seja não apresenta movimentos peristálticos. Em resumo após entrarem no esófago os alimentos não só são dificilmente conduzidos à “válvula” de saída como quando lá chegam, encontram-na encerrada.

     

    Quais as suas causas

    A verdadeira causa da doença é desconhecida. Muitos estudos parecem afastar a existência de agentes infecciosos como causadores da doença, bem como parece pouco provável uma causa hereditária. Na realidade estudos feitos com gémeos verdadeiros (univitelinos) não sugerem esse aspecto.

    Quando se estudam indivíduos com Acalásia encontram-se várias alterações nos nervos e músculos do esófago. A “válvula” de saída do esófago é inervada por dois tipos de nervos: uns que causam encerramento ou contracção desta “válvula” (esfíncter) e que geralmente predominam e outros que quando estimulados (por exemplo ao engolirmos alimentos) levam à abertura da “válvula”. O que inicialmente acontece é que os nervos que provocam a abertura da porta (ou relaxamento do esfíncter) são destruídos (por motivo desconhecido), fazendo com que a “válvula” esteja permanentemente encerrada e não se abra quando engolimos. Numa fase posterior os nervos que causam os movimentos peristálticos (movimentos para conduzir os alimentos) também são comprometidos, o que leva a dificuldade de condução dos alimentos através do esófago.

     

    O que leva o doente a procurar auxílio médico, isto é quais os sinais e sintomas da doença

    A principal queixa do doente é a dificuldade que ele tem em engolir alimentos, sintoma habitualmente referido por disfagia. Inicialmente esta dificuldade inicia-se para alimentos sólidos, mas em breve atinge também os líquidos. A grande generalidade dos doentes tem, durante a evolução da doença, dificuldade na deglutição quer para sólidos quer para líquidos. Em muitos doentes esta queixa é “flutuante”, aumentando de gravidade até atingir um equilíbrio, enquanto para outros a dificuldade em engolir vai aumentando sempre, sendo causa de abandono da alimentação e de emagrecimento. Muitos doentes referem, após engolirem, uma sensação de paragem do alimento, quer na zona média do peito, quer na base do pescoço, embora a zona mais frequentemente referida como local da obstrução seja o local onde termina o esterno (osso da parte média do tórax). Muitos doentes aprendem e referem várias manobras para forçar a comida a passar para o estômago: levantar os braços acima da cabeça, manterem-se direitos (postura erecta) durante a refeição, comerem muito lentamente e até beberem bebidas gasosas.

    A segunda queixa mais frequentemente referida pelos doentes é o retorno à boca de alimentos ingeridos minutos, horas ou dias antes, e que se acumularam no esófago, fenómeno designado por regurgitação. Frequentemente, durante a noite ou pela manhã muitos doentes acordam com tosse ou falta de ar, causados pelos alimentos que voltaram à boca e passaram para o aparelho respiratório. Este aspecto, designado por aspiração, pode mesmo complicar-se por pneumonias (infecção dos pulmões) devido à deposição de restos alimentares no tecido pulmonar. Para evitar isso muitos doentes aprendem a dormir com a cabeceira da cama elevada e evitam refeições abundantes ao jantar.

    Finalmente uma outra queixa típica é a dor no peito (dor na região do esterno), que surge em cerca de 30-50% dos doentes e que é muitas vezes desencadeada pela alimentação. Esta pode ser a causa de muitos doentes emagrecerem por deixarem de comer. Com a evolução da doença existe um grupo de doentes que deixa de ter dor.

     

    Como fazer o diagnóstico, isto é os exames necessários a que o seu médico lhe assegure ter uma Acalásia

    O diagnóstico da Acalásia baseia-se nas queixas já referidas, nomeadamente na disfagia para sólidos e líquidos, de longa evolução, dor e regurgitação, acompanhados, por vezes, de queixas respiratórias.

    No entanto, o recurso aos seguintes exames complementares de diagnóstico é fundamental:

    Endoscopia Digestiva Alta (visualização directa do esófago, estômago e duodeno através de um tubo flexível de fibras ópticas, com cerca de 1cm de diâmetro, que é introduzido pela boca).

    – A sua realização é obrigatória no sentido de eliminar outras doenças que possam imitar as queixas da Acalásia (tumores do esófago e porção alta do estômago; estenose péptica do esófago- aperto resultante do refluxo de ácido do estômago para o esófago).
    – No caso dos doentes com Acalásia pode-se observar um megaesófago (esófago muito dilatado) com abundantes resíduos; a passagem do esófago para o estômago faz-se com “ressalto” do aparelho (figura 1).

    Figura 1

    acalasia_figura1

    Estudo radiológico baritado do esófago (após beber uma papa de material opaco, são efectuadas múltiplas radiografias ao esófago)

    – Caracteristicamente nos doentes com Acalásia observa-se um afunilamento da porção terminal do esófago em “bico de pássaro” (figura 2).
    – Na Acalásia de longa duração, observa-se um esófago muito alargado e sem movimentos que levem o conteúdo do esófago para o estômago (figura 2).
    – Em doença de curta duração este exame pode ser normal.

    Figura 2

    acalasia_figura2

    Manometria esofágica (este exame é efectuado através da introdução pelo nariz de uma sonda flexível e de fino calibre que permite medir as pressões do esófago)

    – Este exame permite o diagnóstico definitivo da Acalásia.
    – Neste exame estudam-se os movimentos que levam o conteúdo do esófago para o estômago e a pressão do esfíncter esofágico inferior (EEI) e o seu relaxamento aquando das deglutições.
    – Caracteristicamente na acalásia o relaxamento do EEI está ausente ou diminuído e associadamente existe uma ausência de motilidade do esófago (figura 3).

    Figura 3

    acalasia_figura3

    Qual o tratamento ou tratamentos que poderão resolver o seu problema e melhorar a sua qualidade de vida

    Esta doença não tem, na actualidade, cura definitiva. Pretende-se com o tratamento uma melhoria das queixas e da qualidade de vida dos doentes.

    No tratamento da Acalásia podem ser utilizadas:

    – Terapêutica medicamentosa

    – Podem-se utilizar os antagonistas do cálcio (nifedipina) ou nitratos (dinitrato de isosorbido) que relaxam a musculatura lisa gastro-intestinal e diminuem a pressão do EEI.
    – A eficácia deste tratamento é muito limitada e pode acompanhar-se de alguns efeitos secundários (dores de cabeça e sensação de desmaio por queda da tensão arterial). Na prática, na maioria dos casos opta-se por uma terapêutica mais eficaz após alguns meses com esta terapêutica, que nos doentes que respondem inicialmente, tende a ser cada vez menos eficaz.

    Terapêutica endoscópica

    – Existem duas formas de tratamento endoscópico:
    1) Injecção de toxina botulínica ao nível do EEI
    – A toxina botulínica bloqueia a libertação de acetilcolina (agente libertado pelos nervos que enervam o esófago), provocando o relaxamento do EEI.
    – A sua aplicação faz-se por injecção ao nível do EEI por endoscopia alta.
    – A eficácia varia entre os 65-90% após a primeira injecção, com duração de 3 meses a 1 ano, mas perde efeito a longo prazo, obrigando a múltiplas sessões, que tendem a perder eficácia.
    – Os efeitos secundários mais frequentes estão relacionados com o procedimento e são essencialmente a dor torácica e a pirose (ardor retro-esternal). Os efeitos secundários a longo prazo são ainda desconhecidos.
    – Pode ser o método de escolha em doentes idosos e com alto risco cirúrgico.

     

    2) Dilatação pneumática do EEI
    – É considerado o tratamento clássico e de primeira linha para a acalásia.
    – Procede-se à dilatação ao nível do EEI com rotura de fibras musculares dirigida por endoscopia e através de um balão insuflável, o que provoca uma marcada diminuição da pressão do EEI.
    – Cerca de 2/3 dos doentes apresentam uma resolução excelente das queixas, após uma a duas dilatações durante um período médio de 1-5 anos.
    – O risco desta técnica prende-se com a perfuração esofágica que pode ocorrer em 5% dos casos (figura 4) e obrigar a uma intervenção cirúrgica
    Figura 4

    acalasia_figura4

    Terapêutica cirúrgica (Miotomia)

    – A cirurgia constitui a forma de tratamento mais permanente.
    – Consiste no corte das fibras musculares do EEI, reduzindo a sua pressão e, podendo actualmente ser efectuada por laparoscopia (cirurgia através de orifícios na parede abdominal), reduzindo desta forma o tempo de internamento e as possíveis complicações da cirurgia.
    – A eficácia a curto prazo da miotomia cirúrgica é de 80-90%, contudo o reaparecimento das queixas ocorre em cerca de 30% dos doentes. Nas formas de doença de longa evolução em que o esófago está muito dilatado e sem motilidade (como um tubo rígido), a miotomia por si própria não é suficiente, podendo ser necessárias cirurgias mais agressivas.

    As terapeuticas mais eficazes são a dilatação e a miotomia. São no entanto também as que podem ter mais complicações, nomeadamente o aparecimento de refluxo gastro-esofágico. Os doentes com contraindicação para cirurgia ou para dilatação podem optar pela injecção de toxina botulínica, sabendo, no entanto, que vão ser necessárias múltiplas sessões de injecção com baixa da eficácia ao longo do tempo.

     

    Que complicações é que a doença pode provocar

    Algumas das complicações causadas pela Acalásia já foram referidas anteriormente. Assim existem complicações ligadas ao aparelho respiratório, como a tosse, sensação de sufoco iminente e falta de ar, bem como as infecções do aparelho respiratório (pneumonias). Outra complicação já anteriormente referida é o emagrecimento, causado fundamentalmente pela diminuição da ingestão de alimentos que o próprio doente escolhe para evitar a dor, ou porque a dificuldade em engolir é muito marcada.

    Finalmente há a referir que os doentes com Acalásia têm um maior risco que a população normal de desenvolverem cancro do esófago e que esse risco parece ser maior com muitos anos de duração da doença. Sabe-se hoje que apesar desse risco existir ele é bastante baixo, de tal forma que não existem programas nem recomendações especiais de vigilância para a detecção precoce do cancro em doentes com Acalásia.

     

    O que pode esperar da doença, isto é qual o prognóstico para uma pessoa que tem Acalásia

    A Acalásia acarreta sobretudo uma importante alteração da qualidade de vida, que no entanto pode ser recuperada na sua quase totalidade com a instituição de um tratamento adequado.

    Em última análise podemos dizer que o prognóstico da Acalásia é favorável e que quem tem esta doença vive em média o mesmo que uma pessoa saudável.

    Fica a recomendação final que a sensação de dificuldade em engolir os alimentos é sempre uma queixa de alarme e que deve levar o doente precocemente ao médico, não esperando pela sua evolução.

    Aerocolia

    Ver Gases no Tubo Digestivo.

    Aerofagia

    Deglutição, voluntária ou involuntária, de ar. Ver Gases no Tubo Digestivo.

    Alergia

    Hipersensibilidade a uma substância estranha ao organismo que se traduz por reação após contacto com o mesmo (urticária, eczema, falta de ar, asma, por exemplo).

    Anemia

    O que é?

    Quando o número de eritrócitos e/ou do seu conteúdo em hemoglobina é inferior ao normal; pode ser de instalação aguda ou crónica e manifestar-se com vários sintomas (palidez da pele, vertigem, cansaço, frequência cardíaca aumentada, desmaios).

     

    Quais são as causas?

    São várias as causas possíveis de anemia, sendo uma das mais frequentes a anemia ferropénica (falta de ferro). A anemia ferropénica tem como causas principais algumas patologias do tudo digestivo, nas quais a perda crónica de sangue, habitualmente ligeira, passa despercebida ao doente. A anemia ferropénica é uma causa frequente de referenciação para o médico gastrenterologista. As perdas crónicas com origem no cancro colo-rectal, cancro gástrico e doença celíaca encontram-se entre as causas mais frequentes e devem ser sempre excluídas.

     

    Como se diagnostica?

    A anemia é um sinal de alarme que deve motivar rápida observação médica. Para o correto diagnóstico de um quadro de anemia ferropénica o médico deve realizar uma história clinica completa, que deve incluir o tempo de evolução do quadro, a pesquisa de outros sintomas e sinais, antecedentes pessoais/familiares e medicação crónica. Deve ainda ser realizado exame físico que poderá apontar para algumas causas e orientar os exames complementares a solicitar, que deverão incluir análises ao sangue, exames endoscópicos como endoscopia digestiva alta, colonoscopia total e Videocápsula.

     

    Como se trata?

    O tratamento definitivo dependerá da causa específica para cada doente. No entanto, todos os doentes deverão ser tratados com ferro oral para corrigir a anemia e repor as reservas de ferro do organismo. Em casos particulares poderá haver necessidade de terapêutica com ferro endovenoso ou mesmo transfusões de sangue.

     

    Anti-inflamatórios e Aparelho Digestivo

    Anti-inflamatórios e Aparelho Digestivo

     

    Calcula-se que diariamente mais de 30 milhões de pessoas se socorrem de medicamentos denominados anti-inflamatórios não esteroides para aliviar queixas dolorosas variadas, como por exemplo ósseas ou articulares, ou simples dores de cabeça. Apesar da eficácia que estes medicamentos possam apresentar, eles podem ser responsáveis por algumas complicações que convém considerar. As mais frequentes relacionam-se com o aparelho digestivo,

    nomeadamente na região do estômago, que após a toma destes fármacos pode tornar-se doloroso, apresentar úlcera, ou mesmo uma hemorragia. A maioria das vezes estes problemas aparecem subitamente, não havendo nenhum teste que permita prever que tal possa acontecer. Existem mesmo situações em que estes fármacos não devem ser consumidos, como acontece no período final de uma gravidez.

     

    Que efeitos colaterais são mais frequentes aparecer no aparelho digestivo?

     

    • Dor na região do estômago
    • Azia
    • Náuseas
    • Vómitos
    • Alteração dos hábitos intestinais (diarreia ou obstipação)

     

    Quem tem risco acrescido?

     

    Todos aqueles que tomam medicamentos anti-inflamatórios têm algum risco de desenvolver problemas digestivos. Alguns contudo têm um risco mais elevado e estão mais suscetíveis de ter complicações. São os que:

    • Têm mais de 60 anos
    • Têm história prévia de úlcera do estômago ou duodeno
    • Tomam associadamente corticóides ou medicamentos que diminuam a coagulação do sangue
    • Consomem álcool regularmente
    • São fumadores
    • Tomam anti-inflamatórios em doses superiores às recomendadas pelo médico
    • Tomam anti-inflamatórios por longos períodos de tempo
    • Tomam simultaneamente outros medicamentos que contêm aspirina e outros anti-inflamatórios

     

    Quais são os sinais de alarme?

     

    Convém salientar que cerca de 80% das pessoas que apresentam problemas digestivos como consequência da toma de anti-inflamatórios, não têm previamente sintomas de alarme. De qualquer forma, deverá ser contactado de imediato o médico, caso algum dos seguintes se faça sentir:

     

    • Dor na zona do estômago
    • Aparecimento de fezes negras ou com sangue vermelho
    • Vómitos persistentes ou com sangue (negro ou vermelho)

     

    É possível diminuir os riscos?

     

    Algumas atitudes são desejáveis antes ou durante a toma de anti-inflamatórios:

     

    • Conhecer os seus próprios fatores de risco
    • Se notar alguma alteração após o início da toma do medicamento, contactar o médico
    • Nunca ultrapassar a dose prescrita, a não ser por indicação médica
    • Evitar ou limitar a ingestão de álcool
    • Falar com o médico acerca dos medicamentos que podem reduzir o risco de complicações dos anti-inflamatórios (nomeadamente a hipótese de tomar em simultâneo medicamentos denominados anti-ulcerosos)
    • Avaliar a possibilidade de tomar outros medicamentos que aliviem a dor e que não sejam anti-inflamatórios (por exemplo paracetamol ou tramadol)
    • Falar com o médico antes de iniciar a toma diária de aspirina em baixas doses

     

    Os anti-inflamatórios têm risco para outros órgãos?

     

    Estudos recentes indicam que alguns anti-inflamatórios podem aumentar o risco de ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral (AVC). Se existir doença cardíaca prévia ou fatores de risco (tensão arterial elevada, colesterol elevado, tabagismo) e tiver necessidade de tomar anti-inflamatórios por períodos prolongados, converse com o médico acerca dos possíveis riscos cardiovasculares acrescidos.

     

    Existem ainda alguns outros efeitos colaterais possíveis sobre outros órgãos e sistemas:

     

    • Toxicidade renal
    • Anemia
    • Reações cutâneas
    • Reações alérgicas
    • Toxicidade sobre o fígado
    • Ataques de asma em pessoas que tenham a doença previamente

     

    Perante a absoluta necessidade de tomar medicamentos anti-inflamatórios, deverá fazê-lo na menor dose possível, durante o mais curto espaço de tempo e preferencialmente sob orientação médica.

    Aparelho Digestivo

    O aparelho digestivo

    A digestão é um processo de fragmentação dos alimentos de modo a transformá-los em elementos suficientemente pequenos para poderem ser absorvidos pelo organismo – proteínas, gorduras e hidratos de carbono.

    A digestão é um processo de fragmentação dos alimentos de modo a transformá-los em elementos suficientemente pequenos para poderem ser absorvidos pelo organismo – proteínas, gorduras e hidratos de carbono.

    Boca

    A Boca contém:

    – os dentes, que trituram os alimentos aumentando a área de exposição às enzimas;

    – a saliva, que é produzida pelas glândulas salivares e inclui o lubrificante mucina, substâncias tampões para neutralizarem ácidos, e agentes antibacterianos e a enzima amilase que inicia o processo de degradação / preparação dos alimentos para serem absorvidos;

    – a língua que manipula os alimentos e permite saboreá-los através das glândulas gustativas.

     

    Faringe

    A Faringe liga a boca ao esófago. Através de um delicado mecanismo de coordenação muscular permite que se engulam os alimentos sem engasgamento.

     

    Esófago

    O Esófago é um órgão tubular que liga a faringe ao estômago. Como todos os outros órgãos do tubo digestivo tem movimentos musculares automáticos propulsivos – peristalse – que promovem a progressão dos alimentos. O diafragma define o ponto onde o esófago passa do tórax para o abdómen. A ligação do esófago ao estômago contém um esfíncter (músculo circular que abre ou fecha a passagem), importante para evitar a regurgitação dos alimentos e do ácido gástrico. Alterações da anatomia e/ou do equilíbrio de forças musculares na ligação do esófago ao estômago originam uma das doenças digestivas mais frequentes – a doença do refluxo gastroesofágico.

     

    Estômago

    O Estômago é um saco em forma de J. Aqui os alimentos são longamente misturados com ácido clorídrico (ácido suficientemente forte para dissolver metal!) e enzimas (pepsina), continuando o processo de preparação para poderem ser absorvidos. Este ambiente ácido é hostil a qualquer ser vivo sendo assim uma barreira muito importante contra as bactérias que acompanham os alimentos.

    Existe, no entanto, uma bactéria que se conseguiu adaptar e vive bem neste ambiente, o Helicobacter pylori, sendo na maioria dos casos inofensiva, mas podendo ser responsável por gastrites ou úlceras complicadas.

     

    Intestino Delgado

    O Intestino Delgado, com um comprimento de cerca de 6m, é composto por 3 partes: Duodeno, Jejuno e Íleo. A sua parede é composta de milhões de pregas microscópicas (vilosidades) que permitem uma superfície total de contacto com os alimentos de cerca de 600 m2.

    No duodeno os alimentos continuam a ser digeridos, desta vez com a ajuda da bílis (vinda do fígado) e das várias enzimas provenientes do pâncreas (suco pancreático) ou das células da própria parede intestinal. É o principal local de absorção de elementos como o ferro e o cálcio.

    As doenças que mais frequentemente o atingem são a úlcera do duodeno, as parasitoses e diferentes infeções virais ou bacterianas (gastroenterites).

     

    Válvula íleo-cecal

    A válvula íleo-cecal é o ponto de transição do intestino delgado para o intestino grosso (cólon). O intestino grosso tem essencialmente funções de armazenamento e de reabsorção de água e alguns nutrientes. É um espaço rico em bactérias que vivem em equilíbrio com o nosso organismo, algumas delas produtoras de gás ao consumirem nutrientes não absorvidos pelo intestino delgado. Começa no cego, onde se implanta o apêndice, e acaba no reto. A doença que mais frequentemente o atinge é a diminuição ou descoordenação da motilidade levando à obstipação (prisão de ventre) e à síndroma do intestino irritável. Os pólipos, pequenos tumores benignos, são frequentes, e retirá-los através da colonoscopia contribui para a diminuição da incidência do cancro do intestino grosso.

     

    Fígado

    O fígado é um órgão com múltiplas funções.

    Entre elas é um filtro muito eficaz de toxinas absorvidas pelo intestino e um local de controlo e correção permanente dos desequilíbrios que vão acontecendo no nosso organismo.

    Produz a bílis necessária para a digestão dos alimentos, a qual é armazenada e concentrada na vesícula biliar e descarregada no duodeno quando este recebe alimentos vindos do estômago. As doenças que mais frequentemente o atingem são a cirrose (último estádio de uma agressão continuada, por ex: pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas), a hepatite viral (B, C, …) e a esteatose (acumulação de gordura que pode ter efeitos inflamatórios e que é frequente na obesidade, diabetes e excesso de álcool). A vesícula biliar é um local de frequente formação de cálculos, a maioria das vezes não causando sintomas.

     

    Pâncreas

    O Pâncreas tem duas funções designadas de exócrina (para fora) e endócrina (para dentro). A primeira, traduz-se na produção de enzimas que constituem o suco pancreático e que contribuem para a digestão e absorção dos alimentos no intestino delgado. A segunda, na produção de hormonas, nomeadamente da insulina, essencial para a regulação do açúcar e cuja falta origina a diabetes.

     

    Exploração médica do Aparelho Digestivo

    A exploração médica do Aparelho Digestivo divide-se em duas áreas fundamentais: exploração morfológica e exploração funcional.

     

    Exemplos de exploração morfológica:

    • Endoscopia Alta (observa-se o esófago, estômago e duodeno)
    • Enteroscopia e Cápsula Endoscópica (intestino delgado)
    • Colonoscopia (intestino grosso e últimos centímetros do íleo)
    • CPRE (observação dos canais biliares e pancreáticos)
    • Ultrassonografia Endoscópica (possibilidade de uso interno de imagens de ecografia)
    • Ecografia Abdominal (exploração do fígado, pâncreas, vias biliares)

     

    Exemplos de exploração funcional:

    • Manometria (estudo do funcionamento muscular de diferentes partes do tubo digestivo)
    • pHmetria esofágica (importante na caracterização de doença do refluxo gastroesofágico)
    • Prova do hidrogénio expirado (para verificação da qualidade de absorção de nutrientes como a lactose)
    • Análises de sangue (essenciais, por exemplo, para avaliar funcionamento do fígado)

     

    Termos referentes a órgãos do aparelho digestivo:

    • Gástrico – estômago (ex: úlcera gástrica, gastrite, gastroenterite, gastrenterologia)
    • Entérico – intestino delgado Cólon – intestino grosso
    • Hepático – fígado (ex: hepatite)

    Benigno

    Sem gravidade (doença de evolução benigna); contrário de maligno (tumor).

    Cancro

    Tumor maligno, constituído pelo crescimento de células desorganizadas e com a capacidade de invadir as estruturas vizinhas e distantes produzindo tumores secundários (metástases).

    Cancro do Cólon e Reto

    O cancro do cólon e recto é um tumor maligno que afecta o intestino grosso.

    Cancro do Pâncreas

    O que é?

    O pâncreas é uma glândula do aparelho digestivo, com duas funções principais:

    1. É responsável pela produção de enzimas digestivas, fundamentais para a digestão dos alimentos (função exócrina);
    2. Produz várias hormonas libertadas para o sangue, como a insulina, fundamentais para a regulação dos níveis de açucar (função endócrina).

    Encontra-se localizado na parte superior do abdómen, atrás do estômago, e é dividido em três partes – cabeça (lado direito), corpo (secção central) e cauda (lado esquerdo).

    O cancro do pâncreas ocorre quando se formam células malignas no tecido pancreático. No pâncreas podem desenvolver-se vários tipos de tumores malignos. O termo “cancro do pâncreas” corresponde genericamente ao adenocarcinoma do pâncreas, que é o tumor maligno do pâncreas mais frequente, e que se forma a partir das células exócrinas (que produzem as enzimas digestivas).

    O cancro do pâncreas é a terceira neoplasia maligna do sistema digestivo mais frequente em Portugal, logo após o cancro do cólon e do estômago. Estima-se que surjam anualmente em Portugal cerca de 1400 novos casos.

    O risco de cancro do pâncreas aumenta com a idade, sendo mais frequente a partir dos 60 anos. Afeta ambos os sexos, com ligeiro predomínio do sexo masculino.

    Estão identificados factores de risco?

    O tabagismo crónico é o principal fator de risco identificado, aumentando o risco cerca de duas a três vezes. Alguns fatores dietéticos, tais como a ingestão de gorduras, a obesidade e o sedentarismo também aumentam o risco. A pacreatite crónica, geralmente associada ao consumo de álcool, é um fator de risco adicional. Existe uma predisposição familiar para o cancro do pâncreas, estando o risco aumentado nos familiares de 1º grau (pais, irmãos ou filhos) de um indivíduo com a doença (particularmente quando esta surge antes dos 50 anos).

    Quais são os sintomas mais frequentes?

    O cancro do pâncreas é habitualmente silencioso até uma fase avançada da doença e os sintomas variam com a localização do tumor no próprio órgão. Os sintomas são relativamente inespecíficos, como dor abdominal, perda de apetite, emagrecimento e cansaço. Quando o tumor envolve a cabeça do pâncreas e provoca obstrução da drenagem biliar (por invasão da via biliar, que leva a bílis do fígado para o intestino) pode surgir icterícia (coloração amarelada dos olhos e pele).

    No momento do diagnóstico mais de metade dos doentes (cerca de 60%) apresentam metastização (disseminação para órgãos à distância), 20 a 25% apresentam doença localmente avançada (cirurgicamente irressecável) e apenas 15 a 20% são candidatos a tratamento cirúrgico.

    Como é feito o diagnóstico e o estadiamento?

    A ecografia abdominal por ser um exame simples, não invasivo e inócuo, é muitas vezes o exame inicial. No entanto a sua acuidade é limitada pela localização profunda do pâncreas na cavidade abdominal, podendo ser difícil observar todos os seus segmentos. A tomografia computadorizada (TAC) com contraste endovenoso e a ressonância magnética são exames de imagem com excelente acuidade na avaliação do pâncreas, sendo muito relevantes no diagnóstico e estadiamento (para caracterização da localização e fase da doença).

    A ecoendoscopia, também conhecida por ultrassonografia transendoscópica, técnica mais recente, em que é utilizada uma sonda de ecografia de alta resolução acoplada a um endoscópio, realizada sob sedação, estabeleceu-se igualmente como um exame indispensável no diagnóstico e estadiamento do cancro do pâncreas. Permite visualizar com elevada acuidade todo o pâncreas através do estômago e duodeno (porção inicial do intestino). É um exame de extrema utilidade no estadiamento loco-regional (para caracterização do tamanho e relação do tumor com estruturas vizinhas). Permite ainda a realização de biópsias (através do tubo digestivo) com maior segurança e conforto para o doente comparativamente às biopsias realizadas através da parede abdominal.

    É possível realizar rastreio?

    Não existe um programa de rastreio definido para a população geral e não existem exames de fácil execução, rapidamente disponíveis, isentos de complicações e com elevada acuidade, que possibilitem a generalização do rastreio do cancro do pâncreas.

    O rastreio de subgrupos específicos com elevado risco de cancro do pâncreas (pela história familiar ou pela identificação de determinados síndromes hereditários) já é realizado em vários centros europeus, mas apenas no âmbito de programas de investigação. Existem critérios de inclusão específicos para estes programas de rastreio, que dependem da estimativa do risco de cancro do pâncreas. A estratégia de rastreio utilizada nos grupos de risco não é consensual, sendo a ecoendoscopia e a ressonância magnética os exames mais utilizados.

    Quais são os tratamentos disponíveis?

    No cancro do pâncreas é fundamental uma abordagem multidisciplinar, tendo a Gastrenterologia um papel crucial nas várias etapas do diagnóstico, estadiamento e tratamento desta doença. A abordagem terapêutica deve ser individualizada, tendo em consideração as características do doente e do próprio tumor.

    O único tratamento que cura efetivamente o cancro do pâncreas é a cirurgia, que deve ser realizada apenas em centros de referência, com experiência em cirurgia pancreática. No momento do diagnóstico apenas é possível realizar cirurgia com potencial curativo em 15 a 20% dos doentes. A técnica cirúrgica realizada depende essencialmente da localização e relação do tumor com estruturas vizinhas. Por vezes, é necessário realizar um tratamento prévio (em geral, quimioterapia) para preparação para a cirurgia (designado tratamanto neoadjuvante), de forma a reduzir o tamanho do tumor e facilitar a técnica cirúrgica. Após a cirurgia, é habitualmente realizada quimioterapia, de forma a tratar potenciais focos residuais de tumor (designado tratamento adjuvante).

    Na maioria dos doentes com doença mais avançada, em que a cirurgia não é tecnicamente possível, o tratamento passa pela realização de quimioterapia, muitas vezes isoladamente, ou em combinação com radioterapia.

    A inclusão em ensaios clínicos deve ser, sempre que possível, equacionada em qualquer fase da doença, o que já é possível em várias instituições portuguesas (a consultar no Registo Nacional de Estudos Clínicos do Infarmed – para mais informações sobre ensaios clínicos, consulte: RNEC).

    Existem recomendações internacionais sobre cancro do pâncreas, especificamente dirigidas ao doente e seus familiares (para mais informações sobre recomendações internacionais sobre cancro do pâncreas, consulte: NCCN guidelines for patients: pancreatic cancer).

    Cirrose Hepática

    O fígado

    O fígado é o maior órgão do corpo humano e pesa cerca de 1,5 Kg. Localiza-se na porção superior do abdómen, à direita, debaixo das costelas. O fígado normal é liso e mole. Funciona como uma fábrica que produz e armazena produtos químicos. Tem múltiplas funções:

    • Produção de proteínas, bílis e factores fundamentais na coagulação do sangue.
    • Armazenamento de energia importante para os músculos.
    • Regulação de muitas hormonas e vitaminas.
    • Eliminação de medicamentos e toxinas incluindo o álcool.
    • Mantém a concentração de açúcar no sangue dentro dos valores normais.
    • Filtra o sangue proveniente do estômago e intestinos.
    • Tem um papel fulcral na defesa do organismo contra as infecções.

    O que é a cirrose hepática?

    Cirrose hepática é o termo utilizado quando as células do fígado morrem e são substituídas por tecido fibroso, semelhante a cicatrizes. A estrutura fica alterada, formando-se os chamados nódulos de regeneração resultando na perturbação da circulação do sangue através do fígado. A substituição do fígado por este tipo de tecido leva à perturbação do desempenho das suas funções: a sua consistência fica muito dura e a superfície irregular e nodular.

    O que causa a cirrose?

    A cirrose é causada por múltiplas situações:

    • Ingestão excessiva de bebidas alcoólicas (causa mais frequente em Portugal).
    • Hepatites provocadas por vírus, as hepatites C e B.
    • Excesso de gordura no fígado (a chamada esteato hepatite não-alcoólica, associada principalmente à obesidade e diabetes).
    • Doenças mais raras (cirrose biliar primária, hepatite auto-imune, hemocromatose, etc).

     

    Como identificar as causas da cirrose?

    De vários modos: pode existir um passado de ingestão de álcool em excesso ou seja mais de duas ou três bebidas no homem e mais de uma a duas na mulher por dia, consoante o peso, por um período superior a 5 anos. Para este efeito considera-se que, um copo de vinho, uma cerveja, um uísque, um copo de vinho de Porto ou um shot contêm idêntica quantidade de álcool.

    Apesar da diferente graduação, contêm também quantidades diversas de líquido por bebida o que as torna em termos de conteúdo de álcool praticamente idênticas.

    Nas hepatites B e C o diagnóstico de certeza é efectuado através de análises sanguíneas: têm que ser pedidos os “marcadores” das hepatites.

    Por vezes é necessário recorrer à biopsia hepática, isto é, colher um fragmento do fígado através de uma agulha apropriada e analisá-lo ao microscópio.

    As bebidas alcoólicas em excesso causam sempre cirrose?

    Não, só uma percentagem de bebedores excessivos vem a desenvolver cirrose hepática: aproximadamente 10-15%. Isto depende de vários factores: genéticos, quantidade ingerida (quanto mais elevada a quantidade maior é o risco), sexo (as mulheres, para a mesma quantidade, têm um risco aumentado). No caso de estar infectado com o vírus da hepatite C, B ou da SIDA o risco é superior.

     

    As hepatites causam sempre cirrose?

    Só uma determinada percentagem dos infectados com as hepatites víricas vem a ter cirrose. A hepatite A nunca provoca cirrose. Dos que contraem hepatite B, 5% ficam com o vírus para sempre, dos quais 20% evoluem para cirrose a médio/longo prazo. Naqueles com hepatite aguda C cerca de 80% permanecem para sempre com o vírus; destes 20% vêm a desenvolver cirrose.

     

    Quais os sinais de cirrose?

    A maioria dos doentes com cirrose hepática não apresenta sintomas. O aparecimento desta doença é silencioso. Pode desenvolver-se durante muitos anos sem que estes se apercebam. Em muitos casos o médico suspeita da existência da cirrose através de análises sanguíneas ou dos resultados da ecografia abdominal. Este período sem sintomas é a chamada fase da cirrose hepática compensada.

    À medida que a doença progride as alterações da estrutura do fígado tornam-se mais intensas, podendo aparecer os seguintes sintomas: emagrecimento, cansaço, olhos amarelos (icterícia), acumulação de líquido no abdómen (ascite), vómitos com sangue (chamadas hematemeses, muitas vezes provocadas pela rotura de veias do esófago dilatadas, as chamadas varizes esofágicas), alterações mentais (encefalopatia hepática), diminuição da resistência às bactérias com infecções muito graves (septicemias, peritonites).

    Uma das complicações mais temíveis da cirrose é o cancro do fígado chamado carcinoma hepatocelular: qualquer pessoa com cirrose tem um risco muito aumentado de lhe surgir este tipo de cancro.

    A fase – de maior gravidade – em que surgem estas complicações chama-se cirrose descompensada.

     

    Qual o tratamento da cirrose?

    Depende da causa e da fase da doença. Considerando as três causas mais frequentes (álcool, hepatite C e B), na fase compensada, deve ser abandonado o consumo de álcool; para as hepatites existem medicamentos que em muitos casos conseguem eliminar ou controlar os vírus.

    Na cirrose descompensada, o tratamento é variável podendo constar de antibióticos, diuréticos (para eliminar líquidos em excesso), endoscopia com terapêutica para as varizes do esófago e tratamentos para impedir o crescimento do carcinoma hepatocelular.

    Nalguns casos, poderá ter que se recorrer ao transplante hepático, cuja taxa de sobrevivência é próxima dos 80%.

     

    Como evitar a cirrose e as suas complicações?

    Evitar o excessivo consumo de bebidas alcoólicas, vacinar-se contra a hepatite B. Quanto à hepatite C, actualmente, os grupos de maior risco são os toxicodependentes e aqueles com relações sexuais de risco (múltiplos parceiros, relações desprotegidas). Deve promover-se a não partilha de seringas ou outro material utilizado no consumo de drogas, bem como o uso do preservativo.

     

    cirrosehepatica

    Colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE)

    O que é?

    A CPRE é um exame endoscópico realizado por médicos gastrenterologistas particularmente especializados nesta técnica, que permite a exploração dos ductos bilio-pancreáticos (canais que drenam a bílis e fluidos pancreáticos) através do cateterismo da papila duodenal e guiado através de raios x e endoscopia. É realizado com um endoscópio especial, o duodenoscópio, introduzido através da boca, habitualmente sob anestesia, e com o doente deitado de barriga para baixo ou de lado. A duração do exame é variável, dependendo da situação clinica e das intervenções terapêuticas que sejam necessárias.

     

    Para que serve?

    A CPRE tem um papel fundamental no tratamento de patologias das vias biliares e pâncreas, por exemplo, a remoção de cálculos ou terapêutica paliativa de tumores das vias biliares e pâncreas.

     

    Que preparação é necessária?

    É um exame realizado em regime de internamento, habitualmente curto, cerca de 24h. É necessário, como para todos os exames, a assinatura de consentimento informado e jejum de pelo menos 6 h. É um exame habitualmente realizado sob sedação anestésica, pelo que poderá ser necessário avaliação prévia por médico anestesista, eletrocardiografia, radiografia de tórax e análises de sangue.

    No caso de estar sob terapêutica com fármacos anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários (por exemplo clopidogrel ou ticlopidina, entre outros), discuta com o seu médico a necessidade da sua suspensão ou substituição. Dependendo da indicação do exame, poderá ainda haver necessidade de tratamento com antibióticos.

     

    Existem riscos?

    Os riscos existem em todos os procedimentos médicos, invasivos ou não. São vários os fatores que aumentam o risco de complicações, e estes deverão ser discutidos antes do exame, pesando os riscos e benefícios do mesmo. As possíveis complicações específicas da CPRE são a pancreatite aguda, hemorragia, infeção e perfuração. Estas complicações são pouco frequentes mas apesar disso, os doentes são sistematicamente vigiados após realização do exame de modo a que, se ocorrerem, sejam rapidamente detetadas e tratadas.

    Em caso de dor abdominal, hemorragia ou febre após realização do exame deverá consultar o seu médico ou o serviço de urgência mais próximo.

    Colite Ulcerosa

    O que é a colite ulcerosa?

    A colite ulcerosa é uma doença inflamatória crónica do intestino grosso (cólon), de causa desconhecida. O processo inflamatório ocasiona ulceração do revestimento interior do cólon, daí a designação de colite ulcerosa. Quando a inflamação se circunscreve, apenas, à porção mais distal do intestino grosso (reto) utiliza-se a designação proctite ulcerosa.

    colite_disease

     

    Quais são os sintomas?

    O primeiro sintoma é, geralmente, a hemorragia rectal. O aparecimento de sangue pode surgir de forma isolada e descontínua como acontece, por vezes, na proctite. Nas formas com atingimento mais extenso ocorre, frequentemente, diarreia com muco, pus e sangue, desejo urgente de evacuar e dor abdominal.

    Durante a fase aguda da doença podem, também, ocorrer febre, anemia, emagrecimento e dores articulares.

    A colite ulcerosa é uma doença crónica caracterizada por períodos de doença aguda e por períodos de remissão com poucos ou nenhuns sintomas.

     

    Qual é a causa da doença?

    A susceptibilidade à doença é determinada por factores genéticos. Com efeito, cerca de 10% dos doentes têm outro familiar próximo com a mesma doença. Alguns factores do ambiente, tais como hábitos alimentares, consumo de tabaco e estilo de vida participam na etiologia.

    A tensão emocional pode, também, influenciar o curso da doença, desencadeando ou agravando as crises.

    Verifica-se, portanto, a interacção de diversos factores na causa da doença.

     

    Como é feito o diagnóstico?

    A história clínica é, geralmente, muito característica. Os exames analíticos ao sangue permitem averiguar a presença de anemia, devido à perda de sangue, bem como, o grau de inflamação. O estudo analítico das fezes é necessário para exclusão de infecção intestinal.

    Para confirmar o diagnóstico é necessário proceder à observação do interior do recto e cólon através de um tubo flexível (endoscópio). Durante o exame é feita a colheita de um fragmento da mucosa (biopsia), para observação microscópica.

    Pode, também, ser solicitada radiografia do cólon (clister opaco), para avaliação da extensão da inflamação.

     

    Quais são as complicações?

    Cerca de metade dos doentes apresentam sintomatologia ligeira. No entanto, alguns doentes apresentam crises agudas graves e necessitam de internamento hospitalar. Nestes casos em que a hemorragia é abundante e repetida, pode ser necessário proceder a operação.

    Os doentes com doença extensa, isto é, atingimento de todo o cólon, e com duração de doença superior a dez anos, podem ter risco de malignidade. Estes doentes, podem desenvolver lesões pré–cancerígenas no recto e cólon, antes do aparecimento de cancro, devendo ser submetidos a vigilância periódica.

    A colite ulcerosa é uma doença sistémica, pelo que podem ocorrer outras manifestações no organismo, nomeadamente, de causa alérgica ou inflamatória. Assim pode verificar-se associação com doenças de pele, articulações, inflamação nos olhos e nos canais biliares do fígado.

    Na maioria das mulheres a gravidez decorre sem complicações. No entanto, recomenda-se que a concepção ocorra em fase de remissão clínica.

     

    A dieta é importante?

    A maioria dos doentes pode e deve fazer uma alimentação normal, portanto, sem restrições dietéticas. Na doença activa, uma dieta com pouca fibra pode ser benéfica no controlo da diarreia e da dor abdominal.

    Alguns doentes devem evitar o leite, uma vez que, não conseguem digerir correctamente o açúcar presente no leite (lactose), porque lhes falta no intestino delgado uma enzima específica.

     

    Qual é a terapêutica?

    Nos doentes com crises ligeiras utilizam-se, geralmente, a sulfasalazina ou a mesalazina por via oral ou em formulações de aplicação tópica (supositórios e enemas). Estes fármacos são utilizados na manutenção da remissão, uma vez que a sua administração por longos períodos de tempo, diminui o risco de recidiva. Quando os sintomas são mais graves utilizam-se os corticosteróides, (prednisolona ou budesonida), que podem ser administrados por via endovenosa, oral ou em enemas e espumas. Induzida a remissão da inflamação, esta medicação é suspensa progressivamente. Nas formas refractárias ao tratamento convencional pode ser necessário utilizar imunossupressores (ciclosporina ou azatioprina).

    Outras substâncias com acção anti–inflamatória como o óleo de peixe e a nicotina podem ter um efeito terapêutico adjuvante.

     

    Quando é necessária a cirurgia?

    Os doentes com crises agudas graves que não respondem ao tratamento médico podem necessitar de intervenção cirúrgica. Também os doentes com doença crónica recidivante ou com risco de malignidade podem necessitar de tratamento cirúrgico. Esta operação consiste na remoção de todo o cólon e recto (proctocolectomia). Nalguns casos, o intestino delgado é ligado à parede abdominal através de uma abertura artificial (estoma). No entanto, surgiram, recentemente, novas operações em que é construída uma bolsa ileal, que funciona de reservatório, e que é unida directamente ao ânus (anastomose ileo-anal). Esta operação permite ao doente evacuar normalmente.

    Colonoscopia

    O que é?

    A colonoscopia é o exame direto do interior do cólon e reto através de um endoscópio (colonoscópio) introduzido através do ânus. Designa-se: retosigmoidoscopia ou pansigmoidoscopia a exploração do reto e colon sigmoide; colonoscopia esquerda a exploração até ao ângulo esplénico e colonoscopia total quando a exploração do cólon é total, incluído a entubação do cego, com visualização do orifício do apêndice.

    É realizada introduzindo o colonoscópio através do ânus, com o doente deitado para o seu lado esquerdo. Poderá no entanto ser necessária a mudança de posição durante o exame e a palpação abdominal para facilitar a progressão do endoscópio. A duração do exame é variável, dependendo da situação clínica do doente e das intervenções terapêuticas que sejam necessárias.

     

    Para que serve?

    A endoscopia do colon e reto possibilita não só o diagnóstico como o tratamento de várias patologias. A colonoscopia tem um papel fundamental e insubstituível na prevenção do cancro colo-rectal (rastreio) pelo diagnóstico precoce e remoção dos pólipos.

     

    Que preparação é necessária?

    A adequada limpeza do cólon e reto antes do exame é fundamental.

    Poderá ser necessário apenas a realização de enema (clister), no caso de se tratar de uma retosigmoidoscopia.

    Para a colonoscopia total é necessário limpeza total e completa do colon, que implicará cuidados com a dieta alguns dias antes do exame e preparação com preparado específico na véspera e/ou no dia do exame. Deverá cumprir rigorosamente as indicações que lhe forem fornecidas no seu Hospital/Clínica, pois o sucesso do exame depende muito da preparação de forma a permitir uma visualização mais detalhada possível e minimizar possíveis complicações.

    É necessário, como para todos os exames, a assinatura de consentimento informado. Poderá ser solicitada avaliação prévia por médico anestesista, eletrocardiografia, radiografia e tórax e análises de sangue.

    No caso de estar sob terapêutica com fármacos anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários (por exemplo clopidogrel ou ticlopidina, entre outros), discuta com o seu médico a necessidade da sua suspensão ou substituição.

    A terapêutica com ferro oral poderá ser prejudicial na limpeza do cólon pelo que deverá ser suspensa pelo menos uma semana antes do exame.

    O exame é realizado em regime de ambulatório, isto é, poderá ir para casa após o mesmo e retomar a sua dieta e atividades habituais. Os doentes que realizarem o exame sob sedação ou anestesia têm indicação para não conduzir e evitar atividades físicas rigorosas no dia do exame.

     

    Existem riscos?

    A sua execução pode causar desconforto pela introdução de ar no interior do colon para permitir a sua adequada observação. A realização do exame sob sedação pelo gastrenterologista ou sedação anestésica diminui ou elimina o desconforto do exame.

    Os riscos existem em todos os procedimentos médicos, invasivos ou não. São vários os fatores que aumentam o risco de complicações, e estes deverão ser discutidos antes do exame, pesando os riscos e benefícios do mesmo.

    As principais complicações específicas da colonoscopia são a hemorragia e perfuração, ambas raras e sobretudo associadas a procedimentos terapêuticos. Nunca é demais relembrar a importância da adequada limpeza do cólon pois minimiza o risco de potenciais complicações. Em caso de dor abdominal, hemorragia ou febre após realização do exame deverá consultar o seu médico ou o serviço de urgência mais próximo.

    Colúria

    Urina de cor escura pela presença de bilirrubina; associado a quadros de icterícia. Ver Icterícia.

    Consumo Excessivo de Álcool

    Quais são os principais problemas causados pelo álcool?

    O consumo diário e excessivo de bebidas alcoólicas pode causar múltiplos problemas físicos e psíquicos, desinserção social do indivíduo, aumento significativo de acidentes rodoviários e da criminalidade. Para além destes problemas há ainda a considerar os laborais e familiares, de consequências muito significativas. No trabalho é notória uma diminuição de rendimento, um elevado absentismo, acidentabilidade e reformas precoces. As perturbações familiares são uma constante e o divórcio uma consequência frequente.

     

    Qual a dimensão do problema?

    Estima-se que o consumo excessivo de álcool ocorra em cerca de 10% das mulheres e 20% dos homens. Respectivamente em 5% e 10% destes indivíduos verifica-se a síndroma de dependência ao álcool ou alcoolismo. Sabe-se também que o álcool está relacionado com 50% dos casos de morte em acidentes de automóvel, 50% dos homicídios e 25% dos suicídios.

    Frequentemente, pessoas portadoras de doenças mentais apresentam também problemas relacionados com o consumo de álcool. Os problemas de saúde relacionados com o álcool são variados e incluem problemas cerebrais, doença cardíaca, doença no pâncreas, cirrose e cancro do fígado.

     

    Qual é a acção do álcool no organismo?

    O álcool ingerido é totalmente absorvido pelo tubo digestivo. Ao contrário dos restantes alimentos, o álcool é completamente absorvido sem sofrer qualquer digestão, sendo posteriormente metabolizado no fígado. A sua absorção é rápida nos indivíduos em jejum e ligeiramente retardada pela ingestão simultânea de alimentos. O nível máximo de concentração alcoólica (alcoolemia) se for feita com alimentos, é atingido cerca de hora e meia após a ingestão e a sua redução é lenta podendo atingir sete horas ou mais. Os efeitos de uma ingestão aguda de álcool variam consoante a quantidade ingerida e o seu teor alcoólico. Com concentrações de 0,5 a 0,8 gramas de álcool por litro de sangue o efeito caracteriza-se por uma fase de excitação, desinibição e diminuição da tensão e da ansiedade; concentrações mais elevadas acentuam a expansividade da síndroma e a falta de crítica. Nesta fase poderá também haver alguma agressividade.Com o aumento da dose as alterações já são muito marcadas. Pode causar náuseas e vómitos, perda da atenção, da sensibilidade, da coordenação motora e do equilíbrio. Segue-se uma fase de grande confusão, sono profundo e, caso a concentração continue aumentando, poderá provocar coma e até morte. Álcool e gravidez são desde os mais longínquos tempos incompatíveis. Os efeitos nocivos de um consumo continuado de álcool são bem conhecidos, todavia é consensual que consumos diários superiores a 24 gramas no homem e a 16 gramas na mulher, são excessivos.

     

    Álcool e legislação

    A lei que regula esta matéria fixou como valor limite da taxa de alcoolemia 0,5 gramas/litro. Há também legislação que proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores e a existência de bares nas imediações de escolas.

     

    Como diagnosticar?

    É importante o indivíduo consciencializar-se que, com um consumo acima do normal deve dirigir-se ao médico assistente, que tentará ajudar na resolução dos problemas. O diagnóstico passa, portanto, por uma boa entrevista com o médico assistente, pela valorização dos consumos diários e por um conjunto de exames para avaliação da extensão do problema. Há diversos exames que podem ajudar no diagnóstico (análises clínicas, ecografia abdominal, biopsia do fígado, testes psicotécnicos e outros). No entanto, competirá ao médico assistente indicar os procedimentos aconselhados.

     

    Há tratamento para o alcoolismo?

    O tratamento tem várias vertentes. Deverá sempre incluir os aspectos biológicos e psicossociais, tendo em conta o universo familiar, laboral e comunitário.

    Relativamente aos problemas orgânicos, na fase inicial as lesões causadas pelo consumo de álcool podem ser reversíveis. É uma fase que pode demorar algum tempo e passa, fundamentalmente, pela abstinência completa do consumo de bebidas alcoólicas. Podem ser prescritos medicamentos para ajudar a combater os sintomas provocados pela dependência ou abstinência ao álcool.

    Nas fases mais adiantadas as lesões podem ser irreversíveis (cirrose hepática). Apesar disso, o tratamento das complicações poderá contribuir para uma substancial melhoria da qualidade de vida.

     

    Não consuma bebidas alcoólicas:

    Se conduzir.

    Se estiver grávida.

    Se tiver idade escolar (antes dos 18 anos).

     

    Consumo diário superior a:

    2 a 3 bebidas alcoólicas no homem

    1 a 2 bebidas alcoólicas na mulher

    é excessivo!

     

    O consumo de bebidas alcoólicas é causa de:

    50% dos crimes.

    50% dos acidentes mortais de automóvel.

    50% das mortes acidentais.

    25% dos suicídios.

    Diarreia

    Aumento da frequência de dejecções (três ou mais vezes ao dia) com fezes líquidas ou pastosas. Pode estar associada com dor abdominal tipo cólica que alivia com as dejecções, sensação de distensão abdominal, náuseas e/ou sensação de urgência em evacuar.

    Diarreia

    Funcionamento intestinal – O que é normal?

    A frequência e a consistência das dejecções são muito variáveis. Algumas pessoas podem ter 3 dejecções por dia enquanto outras evacuam 2 ou 3 vezes por semana.
    As fezes devem ser sólidas, mas macias, não oferecendo dificuldades na evacuação.

     

    Quais as funções do intestino?
    – Absorção de nutrientes e água.
    – Passagem de líquidos do sangue para o intestino de forma a serem excretados.

     

    O que é diarreia?
    Aumento da frequência de dejecções (três ou mais vezes ao dia) com fezes líquidas ou pastosas. Pode estar associada com dor abdominal tipo cólica que alivia com as dejecções, sensação de distensão abdominal, náuseas e/ou sensação de urgência em evacuar. A diarreia pode ser aguda, quando aparece subitamente e é de curta duração, ou crónica quando ocorre durante um período superior a 4 semanas.
    A diarreia aguda é uma situação muito frequente; todas as pessoas têm esta experiência desagradável, com duração breve e que desaparece espontaneamente, sem qualquer tratamento.
    Algumas pessoas referem dejecções frequentes de fezes sólidas, em volume reduzido e sensação de evacuação incompleta; estes sintomas não devem ser considerados como diarreia e ocorrem frequentemente em pessoas com a “síndrome do intestino irritável”.

     

    O que causa a diarreia?
    – Diminuição da absorção de líquidos (passagem de líquidos do intestino para o sangue) em consequência de funcionamento intestinal mais rápido (por exemplo, em resposta à ansiedade) ou devido a inflamação da parede do intestino.
    – Excessiva quantidade de líquido que passa do sangue para o intestino (secreção aumentada), o que acontece quando se ingerem determinados tipos de laxantes ou em situações de gastroenterite aguda.

     

    Quais as causas de diarreia aguda?
    – Doenças funcionais do intestino, como a “síndrome do intestino irritável”, habitualmente associada a ansiedade.
    – Intoxicação alimentar – por ingestão de alimentos ou água contaminados com diversos tipos de bactérias.
    – Gastroenterite aguda – geralmente causadas por vírus de várias espécies.
    – Intolerância alimentar – algumas pessoas não conseguem digerir alguns componentes dos alimentos, como por exemplo a lactose (açúcar que se encontra no leite).
    – Parasitas – ingeridos através da água ou alimentos, podem alojar-se no tubo digestivo e ser causa de diarreia; no nosso país são frequentes as infestações por Giardia lamblia.
    – Nalguns casos, após tratamento com antibióticos.
    – Excesso de ingestão de álcool, sobretudo quando não acompanhado de alimentos.
    Em alguns casos não é possível identificar a causa para a diarreia, não se justificando exames exaustivos se os sintomas desaparecerem rapidamente.
    As pessoas que se deslocam para o estrangeiro podem ter episódios de diarreia, denominando-se esta situação como diarreia do viajante, a qual é geralmente causada pela ingestão de alimentos ou água contaminados com bactérias, vírus ou parasitas.

     

    Quais as causas de diarreia crónica?
    Quando os períodos de diarreia ocorrem frequentemente durante um período longo de tempo ( superior a 4 semanas) a causa mais provável é o intestino irritável (muitas vezes designado por “colite”). Esta é uma doença funcional, assim chamada uma vez que não se identifica nenhuma alteração intestinal em exames complementares de diagnóstico.
    Embora menos frequentes existem outras causas de diarreia crónica:
    – Doenças intestinais como a doença de Crohn, a colite ulcerosa, o cancro do intestino e, mais raramente, terapêutica prévia com radiações e diverticulose.
    – Parasitas podem ser causa de diarreia aguda ou crónica.
    – Deficiência na absorção de nutrientes (ex. doença inflamatória do pâncreas ou doença celíaca); nestes casos existe um aumento no volume das fezes, com cheiro intenso.
    – Alterações hormonais – diabetes ou aumento no funcionamento da glândula tiroideia.
    – Algumas operações gástricas e à vesícula.
    – Alguns medicamentos como antibióticos, antiácidos contendo magnésio, medicamentos para a hipertensão arterial ou reumatismo e, alguns laxantes que contenham na sua composição determinadas substâncias, por exemplo magnésio, cascara ou fenolftaleína.
    – Ingestão em excesso de alimentos e bebidas com adoçantes artificiais (sorbitol) utilizados em rebuçados “sem açúcar” e alguns alimentos; o sorbitol encontra-se igualmente na composição de determinados laxantes.
    – Alimentos contendo leite ou seus derivados em pessoas com défice da enzima que desdobra a lactose (a chamada intolerância à lactose).

     

    Quando se deve consultar o médico?
    Em geral a diarreia não causa quaisquer problemas sérios, resolvendo espontaneamente em alguns dias.
    Deverá ser observado pelo médico nos seguintes casos:
    – Na diarreia aguda, quando tem uma duração superior a 4 ou 5 dias, quando é acompanhada de dores muito intensas no abdómen que não aliviam com as dejecções, quando tem febre superior a 39ºC, quando as fezes têm sangue ou se apresentar sinais de desidratação (sede, diminuição da frequência em urinar, boca seca, fadiga, cefaleias ou urina de cor escura), assim como quando a diarreia é acompanhada de perda significativa de peso.
    – Na diarreia crónica deverá procurar o médico de forma a ser identificada a causa da diarreia e estabelecer o melhor tratamento.
    Na consulta, o médico tentará identificar a causa mais provável da diarreia através de uma história e observação clínicas e decidirá se deverá realizar exames complementares de diagnóstico, os quais podem consistir em análises ao sangue e/ou fezes ou exames endoscópicos como a colonoscopia (visualização de todo o intestino grosso).

     

    Como se trata a diarreia?
    Na maioria dos casos de diarreia aguda não se justifica nenhum tipo de terapêutica exceptuando um aumento na ingestão de líquidos de forma a evitar a desidratação. Quando a diarreia se acompanha de febre elevada ou as fezes contêm sangue, a causa mais provável é uma infecção bacteriana, pelo que não devem ser tomados medicamentos para interromper a diarreia (loperamida, por exemplo); nestes casos o médico poderá aconselhar a utilização de um antibiótico.
    A desidratação poderá ter consequências particularmente graves nas crianças e idosos, devendo ser tratada rapidamente de forma a evitar problemas de saúde mais sérios.

    – Tente identificar se a diarreia é causada por ansiedade, medicamentos ou ingestão de álcool.
    – Aumente o aporte de líquidos (água, chá fraco) de forma a compensar as perdas intestinais e evitar desidratação; deverão igualmente ser ingeridas bananas, de forma a compensar as perdas de potássio. No caso das crianças o médico poderá receitar determinadas soluções de reidratação, as quais contêm os nutrientes necessários.
    – Cuidados alimentares – deverão ser evitados alguns alimentos como o leite e derivados, alimentos com muita fibra, doces ou bolos, uma vez que este tipo de alimentos tendem a agravar a diarreia. Quando a situação melhora deverão ser incluídos na alimentação bananas, batatas cozidas, tostas, cenoura cozida e caldos de galinha sem gordura.
    – Redobre cuidados de higiene em casos de diarreia infecciosa de forma a evitar transmitir a outras pessoas (lavar as mãos!).
    – Evite cozinhar para outras pessoas nomeadamente crianças e idosos.
    – O médico pode receitar um antibiótico em casos de infecção grave.

     

    Diarreia crónica (evolução durante semanas ou meses)
    – Deve consultar o médico de forma a poder excluir-se uma doença subjacente potencialmente curável.

     

    Diarreia na criança
    Na idade pediátrica podem ocorrer episódios de diarreia aguda ou mais raramente diarreia crónica. As causas mais frequentes são infecções virais, bacterianas ou a parasitas, podendo no entanto ser igualmente causadas por medicações, intolerâncias alimentares várias ou doenças funcionais do intestino. As infecções causadas pelo rotavírus são a causa mais frequente de diarreia aguda na criança tendo uma duração de 3 a 9 dias não havendo necessidade de terapêutica específica, exceptuando as medidas para evitar a desidratação. A diarreia aguda pode ter consequências graves no recém-nascido e criança, podendo ocorrer desidratação grave após 1 ou 2 dias de diarreia pelo que nestes casos se deve ter especial atenção às medidas de reidratação. A criança deve ser observada urgentemente
    pelo médico caso se verifique sangue ou pus misturado nas fezes; febre elevada ou sinais de desidratação como boca e língua secas, ausência de lágrimas ao chorar, diminuição da necessidade em mudar fraldas (3 ou mais horas), fontanela deprimida ou irritabilidade.

     

    Disfagia

    O que é?

    Sensação de dificuldade em engolir ou dificuldade na passagem dos alimentos entre a boca e o esófago. Pode decorrer com início súbito, progressivo ou ser intermitente, ocorrer com a ingestão de alimentos líquidos, sólidos ou ambos. Pode decorrer com ou sem sensação de engasgamento, com ou sem dor ou vómitos associados e com ou sem impacto (paragem total) do bolo alimentar, neste caso com necessidade de recorrer a observação médica urgente.

     

    Quais são as causas?

    As causas de disfagia têm origem numa diminuição do calibre do esófago (causas estruturais) ou numa perturbação dos seus normais mecanismos de peristalse (causas neuromusculares). As causas mais frequentes são: acidente vascular cerebral e outras doenças neurológicas (disfagia orofaríngea), doença de refluxo gastroesofágico, esofagite eosinofílica, acalásia, neoplasia esofágica e divertículo de Zenker.

     

    Como se diagnostica?

    Para a avaliação de um quadro de disfagia, o médico deve realizar uma história clínica completa, que deve incluir o tempo de evolução do quadro, a pesquisa de outros sintomas e sinais, antecedentes pessoais e familiares. Deve ainda ser realizado exame físico que ajudará a pensar nas possíveis causas e orientar os exames complementares a solicitar. A disfagia é um sinal de alarme que deve motivar rápida observação médica, sendo imprescindível a realização de endoscopia digestiva alta.

     

    Como se trata?

    O tratamento, definitivo ou paliativo, dependerá da causa específica para cada doente.

    Dispepsia

    A dispepsia, vulgarmente designada por má digestão, é constituída por um conjunto de sintomas surgidos na porção central do abdómen, acima do umbigo. Engloba dois subgrupos distintos de queixas: por um lado, a sensação de dor ou ardor na região do estômago e, por outro, a ocorrência de dificuldade de digestão, seja traduzida por saciedade precoce, seja manifestada por enfartamento pós-prandial.

    Dispepsia

    O que é? 

    A dispepsia, vulgarmente designada por má digestão, é constituída por um conjunto de sintomas surgidos na porção central do abdómen, acima do umbigo. Engloba dois subgrupos distintos de queixas: por um lado, a sensação de dor ou ardor na região do estômago e, por outro, a ocorrência de dificuldade de digestão, seja traduzida por saciedade precoce, seja manifestada por enfartamento pós-prandial. Por saciedade precoce entende-se a sensação de preenchimento rápido do estômago após início da refeição, desproporcional à quantidade de alimentos ingeridos e impedindo a continuação da refeição. O enfartamento pós-prandial corresponde à sensação desagradável de persistência prolongada dos alimentos no estômago.

     

    A Dispepsia é frequente?

    O aparecimento de sintomas dispépticos é um dos problemas clínicos mais frequentes na população dos países com um estilo de vida ocidentalizado, afectando cerca de 20% a 40%. Num número apreciável de casos a sintomatologia é suficientemente incomodativa para motivar a procura de ajuda médica e pode ser incapacitante ao ponto de prejudicar significativamente a qualidade de vida e determinar absentismo profissional.

     

    O que causa a Dispepsia?

    O aparecimento de dispepsia pode resultar de diferentes patologias digestivas, em particular de doenças que afectam o estômago e duodeno. Uma das situações mais representativas é a úlcera péptica, uma ferida do revestimento interno destes órgãos. Esta doença pode resultar da toma de certos medicamentos, como sejam os anti-inflamatórios e a aspirina. Pode, por outro lado, ser causada pela infecção do estômago por uma variante mais agressiva duma bactéria frequente, o Helicobacter pylori. Em alguns doentes, os sintomas podem ter origem noutros órgãos, surgindo, por exemplo, em consequência de doença do pâncreas ou de cálculos biliares. É relativamente raro, especialmente em pessoas com idade inferior a 45-50 anos, que a dispepsia esteja relacionada com doenças malignas, designadamente com o cancro gástrico. Em muitos casos a dispepsia corresponde apenas a uma perturbação do funcionamento digestivo, a qual pode surgir mesmo sem doenças subjacentes. Estas situações são designadas por dispepsia funcional.

     

    Como distinguir estas causas?

    Os sintomas acima referidos não permitem distinguir entre a dispepsia funcional e as situações associadas a doenças orgânicas. Na verdade, quer o tipo quer a severidade dos sintomas é idêntico em todas estas situações clínicas. A endoscopia digestiva alta, ao permitir a observação directa do revestimento interno do esófago, estômago e duodeno, é o exame mais importante para esclarecer o diagnóstico. Pode também proceder-se à pesquisa da infecção pelo Helicobacter pylori. A sua detecção pode fazer-se durante a endoscopia (pela realização de biópsias) ou através de diferentes técnicas que
    dispensam a realização daquele exame. Em alguns casos justifica-se realizar também análises sanguíneas simples e ecografia abdominal. Estes testes permitem avaliar alguns órgãos que circundam o estômago, como sejam o pâncreas, fígado, vesícula e vias biliares.

     

    Que fazer?

    Se os sintomas de dispepsia são persistentes deverá consultar o seu médico assistente. Ele saberá avaliar clinicamente a situação e tomar as decisões adequadas. Por vezes não se justifica realizar, desde logo, exames complementares de diagnóstico. Isto é especialmente verdade em pessoas mais jovens e sem sinais de alarme: por exemplo, emagrecimento, falta de apetite, antecedentes familiares de cancro do estômago, ausência de alterações no exame físico, etc.. Medidas higiénico-dietéticas e certos medicamentos (destinados a reduzir a produção de ácido no estômago) poderão ser suficientes para controlar a sintomatologia. O seu médico poderá entender que é adequado proceder a um tratamento de erradicação do Helicobacter pylori. Se assim for, prescreverá um tratamento em que se associa um inibidor da produção de ácido e, geralmente, dois antibióticos em simultâneo. Quando os exames realizados identificarem uma doença orgânica susceptível de explicar os seus sintomas, o tratamento será orientado em conformidade com cada situação concreta.

     

    É provável que os sintomas reapareçam?

    A dispepsia funcional é, frequentemente, uma alteração crónica. Com efeito, é usual que, mais tarde ou mais cedo, voltem a surgir sintomas, os quais podem variar de intensidade ou frequência. Em muitos casos, esse facto não obriga a realizar novamente exames complementares de diagnóstico, podendo ser repetido o tratamento que anteriormente havia resolvido as queixas. Se surgirem sintomas diferentes, ou por outras razões, o seu médico pode entender que é necessário repetir os testes já realizados ou proceder à requisição de exames diferentes.

    Distensão abdominal

    Sensação de inchaço ao nível do estômago ou abdómen, habitualmente associada à acumulação de gases. Ver Gases no Tubo Digestivo.

    Divertículo de Zenker

    O que é?

    O divertículo de Zenker é uma evaginação (“bolsa”) da mucosa esofágica que se produz na parede posterior da faringe por cima do músculo cricofaríngeo, resultante de uma descoordenação entre a pulsão faríngea e o relaxamento do esófago. Manifesta-se na maioria dos casos com disfagia, tosse, halitose e regurgitação de alimentos não digeridos, mas pode ainda associar-se a sintomas como dor, rouquidão, dificuldade respiratória e infecções respiratórias por aspiração dos alimentos retidos.

     

    Como se diagnostica?

    Para o diagnóstico é necessário uma história clinica, que inclui os sintomas, a sua evolução e outras patologias do doente, exame objetivo e a indispensável endoscopia digestiva alta, complementada ou não, com um trânsito esofágico.

     

    Como se trata?

    Quando sintomático, o tratamento do divertículo de Zenker pode ser endoscópico ou cirúrgico. A técnica endoscópica desenvolvida nos últimos anos, tem como vantagem a rápida recuperação do doente, que na maior parte das situações, tem alta hospitalar no dia seguinte ao procedimento, que é realizado sob anestesia e como tal, indolor.

    Divertículos do Cólon

    O que são?

    Os divertículos são pequenas bolsas que se formam na parede do intestino grosso ou cólon. A presença de múltiplos divertículos designa-se por diverticulose.

     

    Porque se formam?

    Apesar das causas exactas não serem conhecidas, é provável que os divertículos se formem devido a alterações da motilidade. Pensa-se que contracções fortes levem à ocorrência de pressões muito elevadas em determinados segmentos do cólon, com formação de bolsas, em zonas de fraqueza na parede intestinal, de uma forma semelhante à que uma câmara de ar de uma bicicleta pode fazer através de uma zona de fraqueza do pneu.

    Alterações do estilo de vida e da dieta, em particular a redução do conteúdo em fibra, favorecem o desenvolvimento dos divertículos, já que uma inadequada ingestão de fibra, mantêm as fezes endurecidas e de pequenas dimensões, levando a que se gere maior pressão para as movimentar através do cólon.

     

    Provocam sintomas?

    Os divertículos habitualmente não causam sintomas, e a maior parte dos doentes não referem queixas durante toda a sua vida. No entanto, alguns manifestam dor abdominal crónica e intermitente. Quando ocorrem sintomas (dor, distensão abdominal, alterações dos hábitos intestinais) estes podem ser indistinguíveis dos de um intestino irritável. A sintomatologia pode também acontecer quando surgem complicações.

    As complicações possíveis são: diverticulite (inflamação), hemorragia, perfuração e aparecimento de fístulas e estenoses.

     

    Como se diagnosticam?

    Os divertículos podem ser detectados através da realização de exames imagiológicos (clister opaco, Tomografia Computorizada) ou endoscópicos (colonoscopia, sigmoidoscopia) sendo por vezes observados acidentalmente, no decurso de investigação por outro motivo.

     

    Como se tratam?

    A diverticulose que não se acompanha de sintomas não necessita de qualquer tratamento. O tratamento das formas sintomáticas baseia-se no aumento do conteúdo em fibra da dieta, e ainda no tratamento de sintomas de intestino irritável que possam existir concomitantemente. A terapêutica das complicações pode necessitar de hospitalização.

     

    Pontos Importantes

    • Habitualmente ausência de sintomas.

    • Ocasionalmente dor abdominal ligeira (lado esquerdo) ou alteração dos hábitos intestinais (obstipação). Consulte o seu médico se apresentar estes sintomas.

    • Ingira uma dieta rica em fibra e pobre em gordura e carne vermelha.

    Doença autoimune

    Doença causada por lesões que um processo autoimune duradouro e intenso provoca no organismo. O diagnóstico fundamenta-se na deteção de auto-anticorpos e na presença de linfócitos sensibilizados (por exemplo lúpus eritematoso sistémico, hepatite autoimune).

    Doença Celíaca

    O que é a Doença Celíaca?

    É uma doença na qual o intestino delgado, de indivíduos com determinadas características genéticas, apresenta um processo de inflamação e atrofia, desencadeado pela ingestão de glúten, uma proteína que se encontra no trigo, cevada e centeio. As alterações resultantes vão diminuir a absorção de nutrientes e, dessa forma, originar o aparecimento de sintomas.

    Estima-se que cerca de 1% da população em todo o mundo esteja afectada por esta doença, mas em muitos casos o diagnóstico demora anos ou nunca chega a ser efectuado.

     

    Quais são os sintomas?

    A Doença Celíaca pode manifestar-se em qualquer idade e atinge ambos os sexos, embora nos adultos seja mais frequente no sexo feminino.

    Na infância surge tipicamente entre os 6 e os 24 meses, após a introdução dos cereais na alimentação. Neste contexto os sintomas habituais são a diarreia e a distensão abdominal, mas podem também ocorrer atraso de crescimento e anemia.

    No adulto pode existir diarreia, distensão abdominal e emagrecimento. Outros sintomas ou manifestações encontrados consistem em obstipação, cansaço fácil, anemia por carência de ferro, osteoporose e alterações do comportamento, neurológicas ou da pele. Por vezes identificam-se valores de enzimas hepáticas (ALT, AST) elevados.

    Ocasionalmente os sintomas da Doença Celíaca surgem após a gravidez ou parto, uma cirurgia ou infecção.

     

    Como se faz o diagnóstico?

    Perante a suspeita de Doença Celíaca, são habitualmente pedidas análises de sangue, nas quais se efectua o doseamento de auto-anticorpos (anti-transglutaminase e anti-endomísio), cujos valores se encontram alterados nesta entidade. Esta determinação deve ser efectuada antes de qualquer modificação da dieta habitual, para evitar que os resultados possam ser falsamente negativos.

    Quando os valores dos auto-anticorpos são positivos, é necessário efectuar biopsias do intestino delgado, para confirmar as alterações características a este nível. Este procedimento ocorre durante a realização de uma endoscopia digestiva alta (exame em que são observados o esófago, o estômago e o duodeno – porção inicial do intestino delgado). Se os valores dos auto-anticorpos forem negativos mas a suspeita clínica se mantiver, está também indicada a realização da biopsias do intestino delgado.

    Os indivíduos com determinadas doenças, como a diabetes mellitus tipo I ou a tiroidite auto-imune e os que tem Síndroma de Down, apresentam uma probabilidade maior de desenvolverem Doença Celíaca.

    Nestes casos o seu despiste pode ser efectuado através da pesquisa dos auto-anticorpos mencionados.

    Uma vez que se trata de uma doença genética, os familiares de primeiro grau (pais, filhos e irmãos) dos doentes com Doença Celíaca que apresentem sintomas devem efectuar a pesquisa de auto-anticorpos, para avaliar se poderão estar afectados.

     

    Qual é o tratamento?

    A instituição de uma alimentação sem glúten, indefinidamente, é a única terapêutica eficaz na Doença Celíaca não complicada.

    Esta dieta vai conduzir ao desaparecimento dos sintomas e à resolução das alterações existentes no intestino delgado. A melhoria clínica inicia-se após alguns dias, mas a normalização da alterações intestinais demora meses. A reintrodução do glúten na alimentação, mesmo em pequenas quantidades, provoca o reaparecimento das queixas e das alterações intestinais, razão pela qual a dieta sem glúten tem que ser mantida para sempre.

    O símbolo dos alimentos sem glúten, ou a especificação da sua ausência deve constar nos rótulos dos alimentos, para que estes possam ser ingeridos com segurança. Por vezes são os aditivos que contém glúten e o mesmo sucede com alguns medicamentos.

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    Símbolo “Sem glúten” ou “Gluten free”

    São exemplos de alimentos sem glúten: milho, arroz, batata, soja, leite, fruta, vegetais, carne e peixe. Alguns casos não respondem à dieta e, nesse caso, é necessário excluir a existência de complicações, nomeadamente o aparecimento de úlceras ou tumores do intestino delgado.

    A Associação Portuguesa de Celíacos disponibiliza informação sobre esta entidade e apoia os portadores da mesma (www.celiacos.org.pt).

     

    Pontos importantes

    O factor desencadeante da Doença Celíaca é a ingestão de glúten, uma proteína que se encontra no trigo, cevada e centeio.

    Os sintomas resultam da diminuição da absorção de nutrientes e podem ser diferentes de indivíduo para indivíduo.

    O único tratamento eficaz é a instituição de alimentação sem glúten, indefinidamente

    Doença de Crohn

    O que é a doença de Crohn?

    A doença de Crohn é uma doença inflamatória crónica do intestino de causa desconhecida. O processo inflamatório pode atingir qualquer parte do aparelho digestivo. As localizações electivas são a parte terminal do intestino delgado (íleo) e o intestino grosso (cólon). A inflamação atinge, geralmente, toda a espessura da parede intestinal e provoca úlceras (feridas) do seu revestimento interior.

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    Quais são os sintomas?

    Um dos sintomas mais frequentes é a dor abdominal, que é, geralmente, sentida à volta do umbigo ou do lado direito, frequentemente, depois das refeições.

    A diarreia é outra manifestação clínica da doença, podendo as dejecções conter sangue e provocar anemia. A perda do apetite e o emagrecimento são frequentes e podem provocar nas crianças atraso no crescimento.

    Na fase aguda podem, também, aparecer febre, dores articulares e, em alguns casos, doença perianal (abcessos).

     

    Qual é a causa da doença?

    A susceptibilidade à doença é determinada por factores genéticos. Com efeito, cerca de 10% dos doentes têm outro familiar próximo com a mesma doença. Alguns factores do ambiente, tais como hábitos alimentares, consumo de tabaco e estilo de vida, podem ter importância causal.

    Pensa-se que a interacção de elementos estranhos (antigénios, bactérias ou vírus) com o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo, pode causar o aparecimento e manutenção da lesão intestinal.

    A tensão emocional pode, também, influenciar o curso da doença, desencadeando ou agravando as crises.

    Verifica-se, portanto, a interacção de diversos factores na causa da doença.

     

    Como é feito o diagnóstico?

    Além da história clínica e do exame físico, os doentes são submetidos a exames laboratoriais (análises clínicas), a algumas técnicas de imagem (RX, endoscopia, ecografia, TAC, ressonância magnética) e, por vezes, à colheita de fragmentos de tecido intestinal para exame microscópico (biopsias, peça cirúrgica). A observação do interior do cólon, através de um tubo flexível (sigmoidoscópio ou colonoscópio) permite avaliar a actividade e a extensão da inflamação.

    As radiografias com bário, tanto do cólon (clister opaco) como da parte alta do aparelho digestivo (RX intestino delgado) permitem verificar anormalidades na parede intestinal, tais como úlceras e apertos (estenoses). A TAC e ressonância magnética são úteis no diagnóstico de complicações, particularmente, fístulas e abcessos. A cápsula endoscópica usada com alguns cuidados poderá também ser útil.

     

    Quais são as complicações?

    A complicação mais frequente é a oclusão intestinal. A dificuldade na progressão do conteúdo intestinal é consequência do espessamento da parede intestinal provocado pela inflamação. As úlceras quando profundas podem atingir toda a espessura da parede intestinal e estabelecer uma comunicação em túnel (fístula) com segmentos adjacentes do intestino ou com outros órgãos vizinhos (bexiga, vagina, pele). Estas fístulas originam por vezes a formação de áreas infectadas com pus (abcessos). Estas complicações surgem por vezes na vizinhança do ânus.

    A doença de Crohn é uma doença sistémica, pelo que podem ocorrer complicações extra-intestinais, nomeadamente nas articulações, pele, boca, olhos, fígado e canais biliares. A formação de cálculos renais e biliares é, também, frequente. O risco de malignidade não é significativo na maioria dos doentes.

    Na generalidade das mulheres a gravidez decorre sem complicações. No entanto, recomenda-se que a concepção ocorra em fase de remissão clínica.

     

    A dieta é importante?

    A maioria dos doentes pode e deve fazer uma alimentação normal, portanto, sem restrições dietéticas. Na doença activa, uma dieta com pouca fibra pode ser benéfica no controlo da diarreia e da dor abdominal.

    Alguns doentes devem evitar o leite, uma vez que, não conseguem digerir correctamente o açúcar presente no leite (lactose), porque lhes falta no intestino delgado uma enzima específica. Uma dieta com poucos resíduos ou mesmo líquida, pode ser, temporariamente, necessária nos doentes com estreitamentos no intestino delgado.

    Nos doentes com má-absorção pode ser necessário administrar vitaminas e sais minerais. A vitamina B12 é absorvida no íleo terminal, pelo que é necessário a sua administração, por via intramuscular, nos doentes com ileíte ou submetidos a ressecção cirúrgica.

     

    Qual é a terapêutica?

    Os principais medicamentos usados para reduzir a inflamação são a mesalazina e os corticosteróides (prednisolona, budesonida). Os corticosteróides são utilizados na fase aguda quando os sintomas são mais severos.

    Nas formas refractárias ao tratamento e na doença complicada com fístulas utilizam-se medicamentos imunossupressores (azatioprina, metotrexato) e terapêuticas biológicas (infliximab). Os antibióticos (metronidazol e ciprofloxacina) são úteis no tratamento das complicações perianais.

     

    Quando é necessária a cirurgia?

    A cirurgia é necessária quando o tratamento médico é incapaz de controlar os sintomas ou quando há uma complicação (obstrução intestinal, perfuração, abcesso ou hemorragia). O tratamento cirúrgico não cura a doença, mas melhora a qualidade de vida, na maioria dos doentes. Os procedimentos mais frequentes são a drenagem de abcesso ou remoção (ressecção) do segmento de intestino doente com ligação dos topos de secção (anastomose).

    A terapêutica médica pode atrasar o reaparecimento da doença. Verifica-se uma maior tendência de recorrência nos fumadores, pelo que os doentes com doença de Crohn devem parar de fumar.

    Doença de Refluxo Gastroesofágico

    O que é a doença de refluxo gastroesofágico?

    O refluxo gastroesofágico define-se como a passagem do conteúdo gástrico para o esófago, na ausência de vómitos. É um evento frequente que, na maioria dos adultos, ocorre regularmente, a seguir às refeições, em pequena quantidade.

    O refluxo torna-se patológico quando pela sua intensidade, frequência, natureza ou outros condicionalismos é susceptível de desencadear sintomas e/ou provocar lesões da mucosa esofágica (revestimento interior das paredes do esófago) ou, ainda, manifestações extra-esofágicas.

    Quando o refluxo gastroesofágico é causa de sintomas, como a azia, ou de lesões da mucosa esofágica, estamos em presença de uma doença de refluxo gastroesofágico (DRGE).

    Trata-se de uma situação muito frequente – a prevalência de sintomas de refluxo, no mundo ocidental situa-se entre 12 e 54%.

     

    Quais as causas?

    A DRGE resulta de um desequilíbrio entre os factores de defesa e os factores de agressão da mucosa esofágica.

     

    Nos factores de agressão incluem-se:

    • Alguns alimentos (produtos derivados do tomate, sumos de citrinos, chocolate, bebidas com cafeína).
    • Tabaco.
    • Bebidas alcoólicas.
    • Alguns medicamentos (nitratos, estrogénios, contraceptivos orais, bloqueadores dos canais de cálcio, alendronato, etc).
    • Conteúdo ácido do estômago.
    • Refluxo biliar.

    Outros factores:

    • Hérnia do hiato – situação em que uma porção do estômago passa, através do diafragma, para a cavidade torácica; só por si não leva à DRGE, mas as duas condições estão frequentemente associadas e a presença de uma hérnia do hiato poderá levar à disfunção do esfíncter esofágico inferior, aumentando o refluxo.
    • Aumento da pressão intra-abdominal (roupa apertada, gravidez, tosse, obesidade, exercício físico súbito que aumente a pressão intra-abdominal, obstipação).

     

    Quais são os sintomas da doença de refluxo gastroesofágico?

    • Azia – é a manifestação mais frequente da DRGE, consistindo numa sensação de queimadura no meio do peito, que pode irradiar em direcção ao pescoço, que aparece geralmente menos de uma hora após as refeições e que se pode agravar na posição deitada ou inclinada para a frente.
    • Regurgitação – sensação de que os alimentos voltam à boca, sem esforço de vómito.
    • Dor à deglutição dos alimentos.
    • Dificuldade em deglutir os alimentos.
    • Dor torácica – dor na região retroesternal, de origem não cardíaca.
    • Outras – tosse, falta de ar, rouquidão, dor de ouvidos, gengivite, alteração do esmalte dentário.

    A DRGE pode ainda manifestar-se por anemia, por carência de ferro ou, mais raramente, por vómitos com sangue. Nestes casos há lesões da mucosa.

    Nalguns casos poderão surgir outras complicações, como as úlceras, as estenoses e a transformação da mucosa esofágica em revestimento de tipo intestinal (esófago de Barrett).

     

    Como se diagnostica?

    O diagnóstico de DRGE baseia-se na avaliação dos sintomas e do exame objectivo, podendo ser complementado pela realização de exames que incluem:

    • A endoscopia digestiva alta.
    • A radiografia do esófago, estômago e duodeno.
    • A pHmetria das 24 horas – permite o registo do pH esofágico durante 24 horas.

     

    Como se trata?

    Medidas gerais:

    • Refeições pequenas.
    • Evitar alguns alimentos:

    Gorduras;
    Chocolates;
    Citrinos;
    Refogados à base de tomate;
    Alimentos que causem os sintomas

    • Evitar bebidas gaseificadas.
    • Evitar bebidas com cafeína.
    • Evitar comer nas 2 a 3 horas antes de deitar.
    • Não fumar.
    • Emagrecer.
    • Não usar roupa apertada.
    • Evitar actividades que aumentem a pressão intra-abdominal logo após as refeições (p. ex. jardinagem).
    • Elevar a cabeceira da cama cerca de 15 centímetros (colocar um taco de madeira, p. ex., debaixo dos pés da cama, do lado da cabeceira).

     

    Medidas farmacológicas:

    Actualmente o tratamento da DRGE baseia-se em medicamentos que inibem de forma profunda e duradoura a secreção ácida do estômago. Estes medicamentos estão incluídos num grupo designado por inibidores da bomba de protões, existindo 5 tipos: omeprazole, pantoprazole, lansoprazole, rabeprazole e esomeprazole. Todos eles têm demonstrado elevada eficácia no alívio dos sintomas e na cura das lesões da mucosa.

     

    É uma situação crónica?

    A DRGE é uma situação crónica, tornando necessária, em muitos casos, uma terapêutica de manutenção prolongada para evitar a recidiva dos sintomas e/ou das lesões do esófago.

     

    Há tratamentos alternativos?

    Os avanços tecnológicos na área da endoscopia tornaram possível o tratamento endoscópico da DRGE, o que actualmente já é feito em alguns centros especializados. No entanto, são necessários mais estudos para demonstrar a sua eficácia a longo prazo.

    Outra alternativa, em alguns doentes, é a cirurgia anti-refluxo, que hoje em dia se pode fazer por via laparoscópica.

     

    A doença de refluxo gastroesofágica é uma situação grave?

    Na maioria dos casos trata-se de uma afecção benigna, facilmente controlável com terapêutica médica associada a medidas gerais. Alguns doentes têm uma esofagite mais grave, que poderá requerer uma vigilância clínica ou endoscópica mais apertada e medidas terapêuticas, médicas ou cirúrgicas, adequadas.

    Dor Abdominal Aguda

    O que é?

    Sensação dolorosa a nível do abdómen, pode ocorrer em várias localizações e ter várias características (cólicas, moinha, “facada”) e intensidade, com ou sem outros sintomas associados, como febre ou vómitos. Tem uma duração inferior e uma semana e é uma causa muito frequente de recurso a observação médica urgente.

     

    Quais são as causas?

    As causas são muito variadas dependendo da idade, sexo e possíveis doenças crónicas presentes. Nem todas as causas de dor abdominal correspondem necessariamente a doenças do foro gastrointestinal, por exemplo, o enfarte agudo do miocárdio, doenças da aorta abdominal e cólica renal, entre outros, podem manifestar-se com dor abdominal. Algumas das causas gastroenterológicas mais frequentes são: apendicite aguda, pancreatite aguda, colecistite aguda, cólica biliar, oclusão intestinal, perfusão de víscera (por exemplo por úlcera gastroduodenal).

     

    Como se diagnostica?

    A dor abdominal aguda ocorre na maior parte das vezes devido a quadros benignos e autolimitados, no entanto na sua origem pode estar uma situação grave que necessite de cuidados médicos urgentes. Para a avaliação de um quadro de dor abdominal aguda, o médico deve realizar uma história clinica completa, que deve incluir o tempo de evolução do quadro, a pesquisa de outros sintomas e sinais e antecedentes pessoais. Deve ainda ser realizado exame físico cuidado, com destaque para a estabilidade dos sinais vitais ou a presença de febre, o que poderá apontar para algumas causas e orientar os exames complementares a solicitar, entre os quais exames ao sangue, exames imagiológicos e endoscópicos.

     

    Como se trata?

    O tratamento, médico ou cirúrgico, dependerá da causa específica para cada doente.

    Dor Abdominal Crónica

    O que é?

    Sensação dolorosa a nível do abdómen que pode ocorrer em várias localizações e ter várias características (cólica, moinha, “pontada”) e intensidade, com ou sem outros sintomas associados. Pode ser contante ou intermitente e com duração de pelo menos 6 meses.

    A dor abdominal crónica uma causa muito frequente de observação em consulta de Gastrenterologia.

     

    Quais são as causas?

    As causas são muito variadas dependendo da idade, sexo e doenças associadas.

    Nem todas as causas de dor abdominal correspondem a doenças gastrointestinais, por exemplo endometriose, neuropatia diabética e distúrbios neuromusculares podem manifestar-se com dor abdominal crónica. As causas gastroenterológicas podem ser distinguidas em patologias estruturais, entre as quais doença inflamatória intestinal, pancreatite crónica, doença ulcerosa péptica, ou causas funcionais, quando os exames realizados não detetam alterações estruturais, das quais as mais frequentes são o síndrome do intestino irritável e a dispepsia não ulcerosa.

     

    Como se diagnostica?

    Para a avaliação de um quadro de dor abdominal aguda o médico deve realizar uma história clinica completa, que deve incluir a localização, intensidade e irradiação da dor, tempo de evolução do quadro, com fatores de alívio e agravamento da dor, bem como a pesquisa de outros sintomas e sinais, como a perda de peso, a presença de massa abdominal ou perdas de sangue. São igualmente importantes a avaliação dos antecedentes pessoais, como cirurgias prévias ou traumatismos, antecedentes familiares e medicação crónica. Deve ainda ser realizado exame físico completo, o que poderá apontar para algumas causas e orientar os exames complementares a solicitar, entre os quais exames ao sangue, exames imagiológicos e endoscópicos.

     

    Como se trata?

    O tratamento, médico ou cirúrgico, dependerá da causa específica para cada doente.

    Ecoendoscopia Digestiva

    O que é?

    A ecoendoscopia digestiva, ou ultrassonografia endoscópica, é um exame que combina endoscopia digestiva e ecografia, realizado por gastrenterologista diferenciado nesta técnica e endoscópios (ecoendoscópios) especializados.

    É realizada introduzindo o ecoendoscópio através da boca ou do ânus, dependendo do objetivo do exame. A duração da exploração é variável, dependendo da situação clinica do doente e das intervenções diagnósticas e terapêuticas que sejam necessárias.

     

    Para que serve?

    A ecoendoscopia permite não só a visualização da mucosa mas a avaliação em profundidade das estruturas, quer da parede do tudo digestivo, quer de estruturas vizinhas. As principais indicações são o estadiamento de tumores do aparelho digestivo, a avaliação de lesões subepiteliais do tubo digestivo e a avaliação de doenças bilio-pancreáticas, como por exemplo, litíase, pancreatite crónica, quistos e nódulos do pâncreas.

    A punção/biópsia guiada por ecoendoscopia permite ainda a caracterização cito-histológica de lesões parietais e em órgãos adjacentes.

     

    Que preparação é necessária?

    Como para todos os exames endoscópicos é necessário a assinatura de consentimento informado.

    Para a Ecoendoscopia Digestiva Alta é necessário jejum de pelo menos 6 horas.

    Para a Ecoendoscopia Digestiva Baixa pode ser necessária uma preparação de todo o cólon, igual à preparação para colonoscopia, ou apenas do reto, recorrendo para tal a enemas, à semelhança da retosigmoidoscopia.

    Poderá ser necessário avaliação prévia por médico anestesista, electrocardiografia, radiografia e tórax e análises de sangue.

    No caso de estar sob terapêutica com fármacos anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários (por exemplo clopidogrel ou ticlopidina, entre outros), discuta com o seu médico a necessidade da sua suspensão ou substituição.

    Em situações particulares poderá ser necessário terapêutica com antibióticos, situação que será decidida pelo médico executante do procedimento.

     

    Existem riscos?

    No decurso ou após o exame, poderá sentir desconforto pela introdução de ar no interior do cólon ou, no caso de um exame alto, desconforto na garganta pela introdução do aparelho, e ainda no estômago pelo ar insuflado.

    A realização do exame sob sedação pelo gastrenterologista ou sedação anestésica diminui ou elimina o desconforto do exame.

    Os riscos existem em todos os procedimentos médicos, invasivos ou não. São vários os fatores que aumentam o risco de complicações, e estes deverão ser discutidos antes do exame, pesando os riscos e benefícios do mesmo.

    O risco de complicações, embora baixo, é maior quando são realizados procedimentos interventivos, como punções/biópsias, podendo surgir hemorragia, infeção, pancreatite aguda ou, muito raramente, perfuração.

    Em caso de dor abdominal, hemorragia ou febre após realização do exame deverá consultar o seu médico ou o serviço de urgência mais próximo.

    Endoscopia Digestiva

    A endoscopia possibilita e exploração visual do interior de um órgão oco através de um aparelho específico, o endoscópio.

    A endoscopia digestiva dispõe de um conjunto de técnicas dedicadas executadas por especialistas no tubo digestivo, os médicos gastrenterologistas.

    Os endoscópios dispõem de fonte luminosa e existem em diferentes formatos de acordo com o órgão a explorar: anuscópio, para o ânus e reto, colonoscópio, para o cólon, gastroscópio para a exploração do esófago, estômago e duodeno, duodenoscópio para realização de CPRE, enteroscópio, para o intestino delgado, ecoendoscópio, que conjuga endoscopia com ecografia do tubo digestivo.

    Além da observação os endoscópios permitem ainda obter biópsias e a realização de procedimentos terapêuticos como polipectomia, dilatação de estenoses e tratamento de hemorragias, por exemplo por úlceras gástricas e duodenais, entre muitos outros.

    Enteroscopia

    O que é?

    A enteroscopia é uma técnica endoscópica que permite avaliação diagnóstica e a execução de procedimentos terapêuticos no intestino delgado.

    O exame consiste na introdução, através da boca ou do ânus, de um endoscópio particularmente longo e flexível, com cerca de 2 metros (enteroscópio de duplo ou mono-balão), com progressão até, e ao longo do intestino delgado. A duração do exame é variável, dependendo da situação clinica do doente e das intervenções diagnósticas e terapêuticas que sejam necessárias.

     

    Para que serve?

    A enteroscopia possibilita, por exemplo, a obtenção de biópsias ou realização de dilatações o que é uma vantagem desta técnica relativamente à videocápsula. São técnicas complementares, pois algumas das lesões identificadas na cápsula, ou por outros métodos diagnósticos como a ressonância magnética, são posteriormente biopsadas ou excisadas recorrendo à enteroscopia.

     

    Que preparação é necessária?

    Como para todos os exames endoscópicos é necessário a assinatura de consentimento informado.

    Para a enteroscopia por via alta é necessário jejum de pelo menos 6 horas.

    Para a enteroscopia por via baixa é necessária uma preparação de todo o cólon, igual à preparação para colonoscopia.

    Poderá ser necessário avaliação prévia por médico anestesista, eletrocardiografia, radiografia e tórax e análises de sangue.

    No caso de estar sob terapêutica com fármacos anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários (por exemplo clopidogrel ou ticlopidina, entre outros), discuta com o seu médico a necessidade da sua suspensão ou substituição.

     

    Existem riscos?

    Os riscos existem em todos os procedimentos médicos. São vários os fatores que aumentam o risco de complicações, e estes deverão ser discutidos antes do exame, pesando os riscos e benefícios do mesmo.

    A enteroscopia é habitualmente realizada sob sedação anestésica o que elimina o desconforto do exame.

    O risco de complicações, embora baixo, é maior quando são realizados procedimentos terapêuticos, como polipectomias ou dilatações, podendo surgir como complicações, embora raras, como pancreatite aguda, hemorragia ou perfuração.

    Em caso de dor abdominal, hemorragia ou febre após realização do exame deverá consultar o seu médico ou o serviço de urgência mais próximo.

    Esofagite

    Inflamação do esófago de várias etiológicas, por exemplo por refluxo gastro esofágico (esofagite péptica), por ingestão voluntária ou acidental de caústicos (esofagite caústica), infeciosa ou alérgica (esofagite eosinofílica).

    Esofagite Eosinofílica

    O que é?

    Inflamação crónica do esófago mediada por eosinófilos (células do sistema imune que existem no sangue e nos tecidos) e que se manifesta com sinais e sintomas de disfunção esofágica, com maior frequência, disfagia, dor torácica e impacto alimentar.

     

    Como se diagnostica?

    Para o diagnóstico é necessária a existência de suspeição clinica obtida através de uma história clinica e exame objetivo. Para confirmação do diagnóstico é indispensável a realização de endoscopia digestiva alta com biopsias do esófago. São várias as outras causas de inflamação, incluído por eosinófilos, no esófago, pelo que é importante a avaliação por um especialista em gastrenterologia para integrar todos os resultados e o correto diagnóstico.

     

    Como se trata?

    O tratamento pode incluir a terapêutica com inibidores da bomba de protões, a eliminação de alguns alimentos da dieta (os mais frequentes o leite de vaca, a soja, o ovo, amendoins, peixe/mariscos e o trigo), a terapêutica farmacológica com corticoides (fluticasona ou budesonido) e intervenções endoscópicas (por exemplo dilatações) perante complicações ou sequelas da inflamação crónica como as estenoses. Tratando-se de uma doença crónica deve ser sempre acompanhado e aconselhado por um especialista em Gastrenterologia, sendo ainda frequente a colaboração com a Imunoalergologia e Nutrição.

    Esofagogastroduodenoscopia

    O que é?

    Exame do interior do esófago, estômago e duodeno através de um endoscópio introduzido através da boca. Também designada de endoscopia digestiva alta ou gastroscopia.

    É realizada introduzindo o endoscópio através da boca, com o doente deitado para o seu lado esquerdo. A duração do exame é variável, dependendo da situação clinica do doente e das intervenções diagnósticas e terapêuticas que sejam necessárias.

     

    Para que serve?

    A gastroscopia possibilita o diagnóstico e tratamento de várias patologias, por exemplo a esofagite de refluxo, as úlceras gastroduodenais, pólipos gástricos, entre outros.

     

    Que preparação é necessária?

    Como para todos os exames endoscópicos é necessário a assinatura de consentimento informado. A gastroscopia deve ser realizada após jejum de pelo menos 6 h. Poderá ser necessário avaliação prévia por médico anestesista, eletrocardiografia, radiografia e tórax e análises de sangue.

    No caso de estar sob terapêutica com fármacos anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários (por exemplo clopidogrel ou ticlopidina, entre outros), discuta com o seu médico a necessidade da sua suspensão ou substituição. Em situações particulares poderá também ser necessário suspender duas semanas antes do exame o tratamento com os chamados protetores gástricos (inibidores da bomba de protões como por exemplo o omeprazol).

     

    Existem riscos?

    A endoscopia digestiva alta pode causar desconforto na garganta pela introdução do aparelho, e desconforto no estômago pelo ar insuflado.

    A realização do exame sob sedação pelo gastrenterologista ou sedação anestésica diminui ou elimina o desconforto do exame.

    Os riscos existem em todos os procedimentos médicos, invasivos ou não. São vários os fatores que aumentam o risco de complicações, e estes deverão ser discutidos antes do exame, pesando os riscos e benefícios do mesmo.

    As principais complicações da gastroscopia são a hemorragia e a perfuração, muito raras e sobretudo associadas a procedimentos terapêuticos.

    Em caso de dor abdominal hemorragia ou febre após realização do exame deverá consultar o seu médico ou o serviço de urgência mais próximo.

    Estase

    Lentidão ou paragem na circulação de um líquido ou matéria orgânica, por exemplo estase gástrica (dificuldade no esvaziamento do estômago).

    Esteatorreia

    Presença de gordura nas fezes, devido a má digestão e absorção destas habitualmente por doença do pâncreas; caracteriza-se por fezes moles, de cheiro fétido.

    Fígado Gordo

    O que é o fígado gordo?

    Fígado gordo significa acumulação de gordura no fígado. Em termos médicos, denomina-se esteatose hepática

     

    Quais são as causas de fígado gordo?

    Uma das causas importantes de fígado gordo é o consumo de álcool.

    Contudo, aparece também em pessoas sem consumo alcoólico, designando-se então por fígado gordo não alcoólico (esteatohepatite não alcoólica). Este surge no contexto da chamada síndrome metabólica, isto é, em doentes com excesso de peso/obesidade, diabetes e dislipidemia (aumento do colesterol e triglicerídeos).

    O uso de alguns medicamentos (como a amiodarona, os estrogénios, os corticóides, o tamoxifeno, os antiretrovirais), certas doenças metabólicas genéticas, a perda de peso rápida, formas artificiais de nutrição, a ingestão de toxinas (produtos químicos e cogumelos como o Amanitas phalloides) são outras causas, mais raras, de fígado gordo.

     

    Quais são os sintomas?

    A maioria dos doentes não apresenta sintomas. No entanto, podem surgir cansaço e dor ou desconforto no quadrante superior direito do abdómen.

    Ao exame físico, quem tem fígado gordo pode apresentar um fígado aumentado de volume (hepatomegalia).

     

    Como se faz o diagnóstico?

    Habitualmente, o fígado gordo é um achado ecográfico, isto é, detecta-se numa ecografia abdominal realizada por rotina, que mostra um fígado “brilhante” e/ou aumentado de volume.

    Pode suspeitar-se através da alteração das análises sanguíneas, com aumento das enzimas hepáticas (transaminases) em doentes obesos, diabéticos e/ou dislipidémicos. É necessário excluir outras causas de doenças hepáticas, nomeadamente hepatites víricas (hepatites B ou C).

    A biópsia do fígado é o exame que nos permite confirmar o diagnóstico e ainda avaliar o grau de inflamação do fígado. No entanto raramente é necessária.

     

    Qual é o tratamento do fígado gordo?

    Não existe nenhum tratamento específico para o fígado gordo.

    As alterações no estilo de vida e a perda de peso são aspectos fundamentais, com a adopção de medidas dietéticas e prática de exercício físico. A abstinência total de bebidas alcoólicas deve ser encorajada.

    Além disso, é importante o controlo rigoroso das doenças associadas, como a diabetes e a dislipidemia, com medicamentos como a metformina, as tioglitazonas e as estatinas.

     

    Quais são os riscos do fígado gordo?

    Embora a maioria dos casos tenha evolução benigna, sabe-se actualmente que a evolução para cirrose é possível.

    O risco de evolução para cirrose é maior nos doentes com maior idade, diabéticos e que apresentam inflamação do fígado (chamada esteatohepatite não alcoólica).

    Fissura Anal

    O que é?

    Fissura anal é uma ferida linear na margem do ânus (canal anal). Em geral são únicas e surgem na parte posterior do ânus.

     

     

    Como aparece?

    A fissura resulta, habitualmente, de fezes muito duras que provocam a laceração do ânus. No entanto, outros factores podem estar implicados, nomeadamente diarreia. Esta ferida produz espasmo do esfíncter (músculo) anal que vai perpetuar a situação ao provocar dor e dificuldade em evacuar. Esta lesão pode cicatrizar espontaneamente ou necessitar de tratamento. Quando persiste por muito tempo fala-se em fissura crónica.

     

    Sintomatologia

    As queixas mais frequentes são a dor que surge durante a defecação e que se mantém durante algum tempo (minutos a horas) e a emissão de sangue vivo aquando da evacuação. Esta hemorragia é geralmente de pequena quantidade, aparece em redor das fezes ou no papel higiénico. Também pode ocorrer prurido (comichão).

     

    Diagnóstico

    O diagnóstico é fácil atendendo às queixas típicas e recorrendo a uma correcta observação da região anal (que exige o afastamento adequado das nádegas). Deve ser efectuado toque rectal e exame endoscópico. Estes podem não ser possíveis quando existem dor e espasmo acentuados.

     

    Tratamento

    Para o tratamento desta situação é essencial combater a dor e o espasmo anal. Para tal é necessário regular o trânsito intestinal de modo a obter fezes moles, recorrer a analgésicos locais (pomadas) que devem ser aplicados antes e após a defecação (lubrificam o canal anal e diminuem a dor), banhos de assento com água morna durante 10 a 15 minutos após a evacuação (relaxa o esfíncter, reduz o desconforto e aumenta o fluxo sanguíneo que facilita a cicatrização). Em casos de dor mais intensa pode ser necessário recorrer a analgésicos em comprimidos. Pomadas com vitamina A poderão ajudar à cicatrização. Quando estas medidas são ineficazes pode-se tentar o relaxamento do esfíncter anal através de pomadas com nitroglicerina (feitas apenas nalgumas farmácias) e da injecção, no canal anal, de toxina botulínica. Quando todas estas medidas falham é necessário cirurgia. Após a cura, seja por acção da terapêutica médica, seja pelo sucesso cirúrgico, pode haver recorrência da fissura. É sempre importante manter-se a normalidade do trânsito intestinal.

     

    Gases no tubo digestivo

    Porque é que temos gases?
    Todos nós temos gases no interior do tubo igestivo, devido ao ar que é engolido ou por produção no intestino grosso.
    Todos nós libertamos gases, através da boca (eructação) ou através do ânus (flato).

     

    Ar deglutido
    Grande parte do ar engolido é eliminada com as eructações. O que passa para o intestino delgado é parcialmente absorvido. A pequena quantidade que chega ao intestino grosso é eliminada pelo ânus.

     

    Gases produzidos
    Muitos alimentos contêm substâncias que, não sendo digeridas nem absorvidas, atingem o intestino grosso, onde as bactérias aí normalmente presentes as utilizam e produzem gases. Um dos gases é o metano, de odor desagradável.
    O tipo de alimentos que ingerimos, a capacidade de digestão que temos e a variedade de bactérias presentes no nosso intestino, determinarão a quantidade e tipo de gases produzidos.
    Os alimentos que mais se relacionam com a produção de gases são o feijão, grão, repolho, couve-de-bruxelas, brócolos, espargos, ervilhas, cebola, fruta, sumos e produtos dietéticos “sem açúcar”, trigo, milho, cevada, leite e derivados lácteos.
    A digestão ou absorção de diferentes açucares e amidos depende da presença das enzimas necessárias no nosso tubo digestivo. Os níveis de enzima podem diminuir ao longo da nossa vida.

     

    Quais são os sintomas?
    Os sintomas mais frequentes são a sensação de expulsão exagerada de gases (eructações e flatulência) e queixas abdominais (distensão e dor).

    Os sintomas dependerão da quantidade de gás, da sua distribuição e da sensibilidade de cada um.

    Sensação de expulsão de gases
    Raramente a expulsão de gases corresponde a um volume aumentado de gases.
    A eructação ocasional após as refeições é normal.
    A passagem de ar pelo ânus é frequente, ocorrendo normalmente várias vezes por dia, nomeadamente durante o acto defecatório.
    Distensão e dor abdominal
    A distensão, mais do que representar um excesso de gases, traduz habitualmente um transtorno das contracções ou do tónus intestinal.
    O aumento da sensibilidade pode dar a falsa sensação de distensão ou dor abdominal, podendo corresponder à síndrome de intestino irritável. A dor abdominal pode ter diferentes localizações.
    A observação médica é útil para identificar outras situações que podem dar sintomas semelhantes. É particularmente importante no caso de início recente de queixas, em pessoas com mais de 50 anos, história familiar de tumores intestinais ou na presença de sinais de alarme (emagrecimento, presença de sangue nas fezes).

     

    Como se trata?
    Os sintomas podem ser reduzidos por alterações da dieta, através de medicamentos ou diminuindo a quantidade de ar deglutido.
    Compreender as causas ajuda a obter alivio das queixas, reduzindo a preocupação.

    Alterações da dieta
    Evitar alimentos que causam maior produção de gases pode ser útil. No entanto o efeito varia de pessoa para pessoa e por isso é necessário avaliar a resposta às modificações da dieta.
    Alguns dos alimentos a evitar são importantes para uma alimentação saudável (frutas, legumes e produtos lácteos), pelo que apenas devem ser retirados se for comprovado o benefício. Devem ser encontradas alternativas dietéticas.

    Reduzir o ar engolido
    Deve-se evitar comer depressa, mastigando bem a comida. Evitar as bebidas gaseificadas e pastilha elástica.
    A ansiedade pode ser causa de deglutição exagerada de ar, devendo ser combatida.

    Medicamentos ou produtos dietéticos
    É possível recorrer a suplementos enzimáticos de lactase ou a produtos sem lactose, no caso de intolerância à lactose.
    Há medicamentos que podem melhorar os sintomas.

     

    Aerocolia e meteorismo

    São termos comuns usados para descrever problemas relacionados com gases, de significado não exactamente igual.

    Pontos importantes:
    A expulsão de gases do tubo digestivo é um fenómeno habitual e normal
    Raramente é um problema grave.
    A observação médica é importante para identificar outras situações
    Compreender as causas ajuda a resolver o problema.
    As alterações da dieta podem ser úteis, mas não devem impedir uma alimentação saudável.
    Poderá consultar outros folhetos da mesma colecção, sobre temas relacionados:
    • Síndroma do Intestino Irritável
    • Intolerância ao Leite
    • Obstipação

    Gilbert (Síndrome de Gilbert)

    O que é?

    A Síndrome de Gilbert é muito frequente e pode ocorrer em 5 a 7% da população. Dada a sua benignidade é uma síndrome e não uma doença, embora às vezes assim seja designada. Na Síndrome de Gilbert não há qualquer alteração além da elevação de bilirrubina.

    É causada por uma mutação no gene UGT-1A1, que se traduz numa maior ou menor atividade de uma importante enzima no metabolismo da bilirrubina.

    Em situações pontuais, gripe, exercício físico, jejum prolongado, esta enzima pode ficar ainda mais fragilizada, provocando icterícia (hiperlig).

    Sintomas como cansaço, náuseas e desconforto abdominal não são causados pela síndrome de Gilbert. O que acontece com frequência é que nas situações onde ocorrem estes sintomas, durante infeções como a gripe, a enzima reduz ainda mais a sua função e provoca icterícia.

     

    Como se diagnostica?

    O diagnóstico é de exclusão, ou seja, são realizados exames para confirmar que não existem doenças do fígado (ou outras causas de icterícia como a hemólise). De forma geral todos os exames são normais com exceção da bilirrubina indireta ou não conjugada que se encontra ligeiramente aumentada.

    Existe a possibilidade de pesquisa genética para o diagnóstico da Síndrome de Gilbert, mas é um exame caro e pouco eficaz.

     

    Como se trata?

    A Síndrome de Gilbert não é contagiosa, não evolui, não tem complicações a longo prazo e não necessita de qualquer tratamento.

    Helicobater pylori

    O que é o Helicobacter pylori (Hp)?

    O Hp é uma bactéria que infecta o estômago do ser humano e que origina uma reacção inflamatória local. Hoje é sabido que o Hp é um elemento importante no desencadear de algumas alterações a nível do estômago e duodeno (porção inicial do intestino delgado), entre as quais a úlcera péptica.

    A infecção pelo Helicobacter pylori é frequente?

    O Hp infecta aproximadamente 60% da população mundial, sendo a infecção gastrointestinal mais comum em todo o mundo. Ela é substancialmente menos frequente nos países desenvolvidos em comparação com os países em desenvolvimento, estando este facto provavelmente relacionado com as diferentes condições higieno-sanitárias. Em Portugal cerca de 70% da população adulta encontra-se infectada, sendo em grande parte dos casos a infecção adquirida na infância, o que quer dizer que se prolongará ao longo de vários anos.

    Que queixas provoca a infecção pelo Helicobacter pylori?

    Embora a infecção possa persistir durante muitos anos, não se pode dizer que haja qualquer queixa directa e específica atribuível ao Hp. Além do mais, apenas uma pequena minoria dos indivíduos infectados desenvolvem problemas que podem ser atribuíveis à presença do Hp, como, por exemplo, a úlcera gástrica e duodenal, que por sua vez podem originar sintomas diversos entre os quais a dor é o mais frequente.

    As úlceras do estômago ou duodeno relacionam-se com o Helicobacter pylori?

    Cerca de 90% das úlceras duodenais e 70% das úlceras do estômago estão relacionadas com a presença de Hp. Contudo a maior parte das pessoas infectadas com Hp não desenvolvem qualquer tipo de úlcera, o que quererá dizer que existirão também outros factores envolvidos no aparecimento deste problema (ácido gástrico, factores genéticos, uso de medicamentos anti-inflamatórios, tabagismo e quiçá os vários tipos de Hp). Sem eliminar o Hp, quase todas as úlceras têm recaídas que provocam dor e outros sintomas, o que raramente acontece se o Hp for erradicado, tornando possível a cura definitiva da úlcera na maior parte dos casos.

    Quando e como se deve fazer o diagnóstico de uma possível infecção pelo Helicobacter pylori?

    O diagnóstico da infecção só se deverá fazer se houver intenção de a tratar. Esta intenção é determinada fundamentalmente por razões de ordem clínica, que o médico em cada caso deverá considerar. Existem vários métodos de diagnóstico eficazes (teste sanguíneo, teste nas fezes, teste respiratório, biopsia por via endoscópica), que deverão ser escolhidos pelo médico em função de vários factores (clínicos, económicos e de facilidade de acesso).

    É fácil o tratamento da infecção pelo Helicobacter pylori?

    O tratamento de erradicação do Hp deverá ser prescrito pelo médico e consiste habitualmente na associação de dois antibióticos e um inibidor da secreção do ácido do estômago. A eficácia é, em geral, superior a 80% e existem vários outros tratamentos possíveis quando não se consegue a erradicação na primeira tentativa. No adulto, uma vez confirmada a erradicação da bactéria, a reinfecção é extremamente rara.

    Quando está indicado fazer tratamento para a erradicação do Helicobacter pylori?

    Inequivocamente na úlcera péptica do estômago e do duodeno bem como em determinado tipo de tumores raros que podem envolver o estômago (Linfoma MALT de baixo grau de malignidade). Poderá também ser aceitável essa erradicação em algumas outras situações, avaliadas pelo médico caso a caso.

    Que relação existe entre o Helicobacter pylori e o cancro do estômago?

    Apenas uma pequena minoria de indivíduos infectados com Hp poderão vir a ter cancro do estômago. Esta é uma doença multifactorial que demora longo tempo a desenvolver-se e para a qual o Hp poderá ser apenas um dos factores contribuintes, associado a alguns outros entre os quais susceptibilidade genética aumentada por parte do doente. Não há, contudo, no presente razões científicas consistentes que indiquem a erradicação do Hp como forma de prevenção, nem tão pouco o seu envolvimento em programas de rastreio do cancro do estômago.

    Hemocromatose Hereditária

    O que é a hemocromatose hereditária?

    A hemocromatose é uma doença hereditária caracterizada pela absorção exagerada de ferro. O ferro é ingerido normalmente através da alimentação e é absorvido pelo intestino. Quando os depósitos de ferro no organismo estão adequados, a absorção do ferro pelo intestino diminui por forma a evitar a sua acumulação. Na hemocromatose o mecanismo regulador da absorção está alterado, continuando o organismo a absorver ferro independentemente dos depósitos e levando ao progressivo excesso de ferro (sobrecarga). A hemocromatose é a doença hereditária mais frequente na raça branca. Resulta da herança de duas cópias defeituosas de um gene (gene mutante HFE). Se não diagnosticada e tratada precocemente, o excesso de ferro e os depósitos de ferro poderão causar: no fígado a cirrose e o cancro; no coração a insuficiência cardíaca; no pâncreas a diabetes; nas articulações a artrite; e a acumulação de ferro na hipófise, entre outras causas, poderá facilitar a impotência sexual.

     

    Quais os sinais e os sintomas?

    Os sintomas dividem-se em dois grupos. Uns são chamados sintomas precoces que normalmente indicam que a doença está no início e se tratada curará. São sintomas precoces a fadiga e desconforto abdominal acompanhados de alteração discreta das enzimas hepáticas, as transaminases. São sintomas mais tardios: impotência sexual, diabetes, hiperpigmentação da pele, artrite e cirrose hepática. Alguns destes sintomas e sinais, tais como a cirrose hepática e a diabetes são irreversíveis. Todavia, se tratados melhorarão mas não revertem completamente.

     

    Como se diagnostica?

    É muito importante que a hemocromatose seja diagnosticada precocemente. Uma vez diagnosticada e tratada precocemente, a doença cura sendo a esperança de vida igual à da população saudável. O diagnóstico é suspeitado através de análises ao sangue: a saturação da transferrina quando superior a 45% deverá ser repetida. Se se confirmar valor superior a 45% deverá fazer-se determinação da ferritina. Se as duas análises estiverem elevadas, o médico deverá ponderar pedir o teste genético da hemocromatose (que é HFE C282Y e H63D). A biopsia hepática está indicada apenas nos casos em que se suspeita de lesão do fígado, ou seja, fibrose hepática ou cirrose hepática.

     

    Como se trata?

    A hemocromatose hereditária é muito fácil de tratar. Trata-se extraindo ferro através de sangrias (também chamadas flebotomias). Existem dois tipos de tratamento:

    a) Tratamento intensivo

    Deverá ser feito com flebotomias de 400 a 500 cc de sangue, uma vez por semana, enquanto a ferritina for > 20 ng/ml e o hematócrito > 35%.

    b) Tratamento de manutenção

    3 a 4 vezes por ano com flebotomias de 400 cc durante toda a vida.

     

    Alguns conselhos para os doentes com hemocromatose:

    • Não tome medicamentos com ferro.
    • Não tome vitamina C (promove a absorção do ferro).
    • Não consuma álcool ou faça-o moderadamente.

     

    Hemorragia Digestiva Alta

    O que é?

    A hemorragia digestiva alta é um dos motivos mais frequentes de admissão nas urgências hospitalares. Manifesta-se pela presença de hematemeses (vómitos com sangue), melenas (fezes escuras tipo alcatrão de sangue digerido) ou sangue nas fezes. Por vezes o doente não se apercebe das perdas hemáticas e manifesta-se com anemia aguda com fraqueza súbita e desmaios.

     

    Quais são as causas?

    As causas são múltiplas e variam de acordo com a idade e fatores de risco do doente, nomeadamente medicação com anticoagulantes ou a presença doença hepática crónica. As causas mais frequentes são as úlceras pépticas, as erosões gastroduodenais, esofagite, varizes gastroesofágicas, laceração de Mallory Weiss, malformações vasculares e neoplasias.

     

    Como se diagnostica?

    Para a avaliação de um quadro de hemorragia digestiva alta, o médico deve realizar uma história clinica, que deve incluir a pesquisa de fatores de risco (consumo de anti-inflamatórios não esteroides por exemplo), fatores de prognóstico (como a perda de consciência que representa a possibilidade de hemorragia grave), bem como a pesquisa de outros sintomas e sinais. São igualmente importantes a avaliação dos antecedentes pessoais, como cirurgias prévias, antecedentes familiares e toda a medicação crónica.

    Deve ainda ser realizado exame físico, com imprescindível avaliação dos sinais vitais. Posteriormente serão solicitados exames complementares, entre os quais exames ao sangue. Deve sempre motivar avaliação endoscópica, inicialmente com a realização de endoscopia digestiva alta, podendo ser necessários outros exames posteriores.

     

    Como se trata?

    O objetivo primordial na abordagem do doente com hemorragia digestiva alta deve ser a sua estabilização hemodinâmica, com aporte de soros, medicação adjuvante e eventual transfusão de sangue. A endoscopia digestiva tem um papel fundamental pois permite avaliação diagnóstica e, na maior parte das vezes, intervenção terapêutica. A endoscopia é ainda importante na estratificação do risco de recidiva hemorrágica, o que ajuda na decisão de internar ou não o doente, e oferece ainda informação acerca do prognóstico de acordo com a causa identificada. Algumas situações podem ultrapassar o limite das técnicas endoscópicas e necessitar de terapêutica cirúrgica definitiva, por exemplo no caso das neoplasias.

    Hemorróidas

    O que são?

    Hemorróidas são vasos sanguíneos normais que existem no canal anal de todas as pessoas. Fala-se em doença hemorroidária quando existem queixas atribuíveis às hemorróidas.

     

     

    Como aparecem?

    Quando estas veias são continuamente submetidas a esforço, elas dilatam e inflamam, podendo fazer saliência, surgindo formações arredondadas à volta do ânus. O factor mais frequentemente associado ao alargamento das hemorróidas é a obstipação (“prisão de ventre”); no entanto, a diarreia crónica, tosse frequente e gravidez também podem contribuir para o seu aparecimento.

     

    Sintomatologia

    A queixa mais frequente é a hemorragia, durante e após a defecação (no papel higiénico, fezes raiadas de sangue ou “pingar na sanita”). O desconforto anal com humidade e prurido (“comichão”) também são comuns. Pode ocorrer saliência através do canal anal, inicialmente durante as dejecções com retorno espontâneo, mas em fases mais avançadas pode ser necessário reduzir (colocar para dentro) manualmente. Quando se forma um coágulo numa das hemorróidas (trombose hemorroidária) verifica-se aumento de volume local e dor intensa.

     

    Diagnóstico

    O diagnóstico deve ser suspeitado perante os sintomas referidos. Se existe prolapso acentuado ou trombose hemorroidária, a simples observação da região anal permite o diagnóstico. No entanto, como é frequente a hemorragia e outras causas podem estar presentes, deve sempre procurar o seu médico para que lhe seja pedido exame endoscópico ao intestino (colonoscopia).

     

    Tratamento

    Atendendo a que as hemorróidas são estruturas normais só se efectua tratamento quando existem sintomas. É essencial combater a obstipação de modo a reduzir o esforço durante a defecação. É aconselhável evitar determinados alimentos que têm uma acção irritante e aumentam as queixas (álcool, pimenta). O uso de pomadas e supositórios com efeito analgésico e com vitamina A, bem como comprimidos para fortalecer as veias (venotrópicos como as diosminas), diminuem a inflamação das hemorróidas, levando ao alívio temporário das queixas durante as crises. Na trombose hemorroidária pode ser útil fazer banhos de assento com água morna, podendo o coágulo desaparecer em 4 a 6 semanas. No entanto, não raramente, é necessário abrir a veia e remover o coágulo de modo a obter um alívio rápido das queixas. Quando a terapêutica prévia não é eficaz é necessário recorrer a tratamentos instrumentais como, por exemplo, laqueação elástica, injecção de produtos esclerosantes, infravermelhos ou crioterapia. Estes procedimentos, que permitem “secar” as hemorróidas sem recurso à cirurgia, são geralmente bem tolerados, sem complicações significativas, necessitando habitualmente de várias sessões. Quando as hemorróidas são muito volumosas ou os tratamentos anteriores falham, a solução é cirúrgica.

    Hepatite Autoimune

    A hepatite autoimune é uma doença inflamatória do fígado, progressiva, que pode evoluir para cirrose hepática.

    É uma doença predominante em mulheres entre os 30 e 40 anos de idade mas também pode atingir outros grupos etários e o sexo masculino. A causa da hepatite auto-imune permanece desconhecida mas sabe-se que existe uma alteração da regulação do sistema imunitário (sistema de defesa do organismo) com a produção de auto-anticorpos que atacam o fígado.
    É uma doença de início insidioso caracterizada por sintomas pouco específicos como: mal estar geral, fadiga, falta de apetite, dores articulares e musculares. No sexo feminino podem surgir alterações do ciclo menstrual (amenorreia). Em cerca de 20% dos casos pode manifestar-se por sintomas semelhantes aos da hepatite aguda : icterícia, febre e aumento do tamanho do fígado.
    Alguns doentes podem não ter sintomas e apresentar apenas alterações das análises laboratoriais. Há também uma pequena percentagem de doentes que se apresenta com um quadro de insuficiência hepática fulminante (alterações do estado de consciência, icterícia, hemorragias).
    A hepatite auto-imune pode surgir associada a outras doenças auto-imunes como: diabetes mellitus, colite ulcerosa, artrite reumatóide e lupus eritematoso sistémico.
    As análises do sangue podem revelar: aumento das transaminases (enzimas hepáticas, AST e ALT), aumento da fosfatase alcalina e da y-GT (gama-glutamiltranspeptidase), aumento da y-globulina (proteínas do sangue que ajudam a combater as infecções) e presença de auto-anticorpos (ANA-anticorpos antinucleares). Antes de se diagnosticar a hepatite auto-imune devem ser excluídas outras causas de doença hepática crónica como: vírus (hepatite B, hepatite C) drogas e medicamentos, hemocromatose, doença de Wilson e défice de alfa1-antitripsina.

    A realização de biopsia hepática é essencial para estabelecer o diagnóstico e definir o prognóstico. O tratamento baseia-se na imunosupressão com glicocorticoides (prednisolona) associado ou não a azatioprina (Imuran®).

    Esta terapêutica reduz os sintomas, melhora a função hepática e aumenta a sobrevida. A taxa de sobrevida dos doentes não tratados aos 10 anos é de 10%. Uma vez alcançada a remissão (melhoria clínica, laboratorial e histológica) é necessário manter uma dose mínima de corticóides durante longo período de tempo (12 meses a 3 anos) porque se o tratamento for totalmente interrompido há recorrência da doença.

    A alternativa terapêutica, caso ocorra insuficiência hepática, é o transplante hepático.

    Hepatite B

    Dimensão da problema, o portador crónico

    A hepatite B é uma inflamação do fígado causada pelo vírus da hepatite B (VHB). Cerca de 300 milhões da população mundial são portadores crónicos ou seja vivem para sempre com a presença do vírus no sangue. A hepatite B crónica é uma das principais causas de cirrose e de cancro do fígado no mundo. Em Portugal, calcula-se que existam cerca de 100.000 portadores. Todos são potencialmente infecciosos. O portador crónico é facilmente identificável através de uma análise ao sangue, o AgHBs.

     

     

    O Vírus

    O VHB foi identificado em 1965. É considerado o segundo agente mais importante causador de cancro logo a seguir ao tabaco. Uma das suas características reside no facto de se integrar nos genes do Homem e, quando se torna crónico (o tal portador crónico) ser muito difícil de eliminar. O VHB reproduz-se nas células do fígado, mas tem a capacidade de infectar outros tecidos, todavia sem relevância clínica. Pode estar presente noutros fluidos orgânicos como, por exemplo, a saliva, mas só o sangue e os fluidos sexuais são contagiosos.

     

    A Doença

    O VHB pode originar doença hepática aguda (hepatite aguda) e crónica (hepatite crónica). Fala-se de hepatite crónica quando se estende por mais de seis meses. Na maioria dos casos, a hepatite B aguda é uma doença sem sintomas e só as análises podem revelar a doença. Em casos mais raros pode surgir icterícia ou seja coloração amarelada dos olhos. É fundamental para o diagnóstico, a determinação dos chamados marcadores no sange, nomeadamente a presença do antigénio de superfície (AgHBs). A evolução habitual da hepatite aguda num adulto saudável, é a cura que surge em mais de 95% dos casos. Isto significa que desaparece do sangue o AgHBs e surge o respectivo anticorpo – o anti-HBs. O mesmo pode não acontecer se a infecção ocorrer na infância, em particular no período de recém-nascido, quando existe um risco muito elevado da criança se tornar portadora crónica. As mães portadoras do VHB transmitem, de acordo com o seu grau de infecciosidade, o vírus aos seus descendentes na altura do parto. A maioria dos portadores do vírus não tem doença activa, isto é, não têm sintomas, as análises hepáticas (ALT) não estão elevadas e o fígado é normal ou tem apenas inflamação mínima. Este estado, que pode durar toda a vida, é chamado de portador crónico inactivo. Aqueles com hepatite B crónica, ao contrário dos portadores inactivos, podem ter as aminotransferases (ALT) persistentemente elevadas e o fígado apresentar graus variáveis de inflamação. Aproximadamente um quarto dos doentes com hepatite B crónica pode evoluir a longo prazo para formas mais graves como a cirrose ou o cancro do fígado (carcinoma hepatocelular ou hepatoma). A análise mais importante no portador crónica é a determinação do chamado ADN VHB. Esta corresponde à chamada “carga vírica” que avalia a actividade do vírus. Quanto mais elevada a carga maior o risco de surgirem complicações no futuro. A biopsia ao fígado (colher um pouco do fígado com uma agulha) nem sempre é necessária e por vezes pode ser substituída por outro exame muito fácil de realizar, semelhante a uma ecografia. É o chamado Fibroscan®. O exame a realizar será determinado pelo seu médico assistente.

     

    O Tratamento

    Apenas alguns portadores crónicos têm indicação para tratamento: de uma forma geral aqueles com elevação da ALT (pode ser uma ligeira alteração), que apresentem lesões moderadas ou graves na biópsia ou no Fibroscan® e quando o ADN VHB é superior a 2.000 Unidades Internacionais. Estão aprovados para o tratamento da hepatite B, em primeira opção, três fármacos: o Interferão Peguilado (injectável, uma vez por semana, durante 48 semanas) e dois antivíricos orais, O Entecavir o Tenofovir. Ambos são tomados na dose de um comprimido por dia, em princípio para sempre. O que se pretende com qualquer dos fármacos é o desaparecimento mantido da replicação do vírus A eliminação da replicação vírica, correspondente à negativação do ADN VHB, consegue-se em aproximadamente 20-30% dos casos com o Interferão e em 80-90% dos doentes com o Entecavir e o Tenofovir. Isto conduz à também normalização da ALT e à franca melhoria da inflamação do fígado. O risco de aperacerem complicações a longo prazo, cirrose ou cancro do fígado, também se reduz.

     

    A Prevenção

    A vacina da hepatite B é um dos grandes avanços da Medicina Moderna. É utilizada há cerca de 30 anos, sendo eficaz em mais de 95% dos vacinados. É uma vacina muito segura que já salvou milhares de vidas. Nos países onde foi introduzida há mais tempo, verificouse a redução muito marcada do número de casos de hepatite aguda, do número de portadores crónicos e redução do cancro do fígado, para já, nas crianças (Taiwan e Alaska). Já foram administradas um bilião de doses em cerca de 180 países em todo o Mundo. A vacina, em Portugal, está incluída no Programa Nacional de Vacinação para todos os recém-nascidos e jovens dos 10 aos 13 anos de idade. É administrada em três doses aos 0, 2 e 6 meses de formas intramuscular. Aos recém-nascidos de mães portadoras, a vacina deve ser administrada imediatamente após o parto associada à imunoglobulina. Não é necessário dose de reforço pelo menos durante 20 anos. No agregado familiar a única restrição que se recomenda é a não partilha de objectos cortantes ou que possam ter sangue e a vacinação dos indivíduos não protegidos. Nunca é demais preconizar o uso do preservativo em relações de risco, já que a transmissão sexual é a forma mais comum de transmissão no mundo ocidental. Ninguém está isento do risco de contrair hepatite B, de modo que se recomenda a vacinação do maior número de possível de indivíduos. Recomendamos também o rastreio da hepatite B através da determinação do AgHBs mesmo em pessoas que não se considerem de risco.

     

    Ideias-Chave Hepatite B

    • 300 milhões de portadores em todo o Mundo
    • 100.000 portadores em Portugal
    • Análise que diagnostica o portador (AgHBs)
    • Possibilidade de evolução para cirrose e cancro do fígado
    • Vacina muito eficaz e segura
    • Tratamento que controla a doença em mais de 90% dos casos

    Hepatite C

    A hepatite C afeta cerca de 170 milhões de pessoas em todo o mundo. Em Portugal, calcula-se que haja 100.000 pessoas infetadas, estimando-se que apenas 30% estejam diagnosticadas. A infecção torna-se crónica em aproximadamente 50-85% dos adultos infetados e, entre estes, 30-40% virá a desenvolver cirrose hepática, a forma mais avançada de doença. A hepatite C é uma doença silenciosa, porque a maioria não tem sintomas e não sabem que estão infetados. Pode levar anos – mesmo décadas – a progredir e a aparecerem os primeiros sintomas, em consequência de uma doença hepática grave como a cirrose hepática ou o cancro do fígado (carcinoma hepatocelular). A doença hepática crónica associada à hepatite C é, nos países desenvolvidos, a principal indicação para transplante hepático. Não existe actualmente vacina, mas tem havido grandes progressos na terapêutica. Identificar as pessoas infectadas que não o sabem, juntamente com a introdução de tratamentos mais eficazes, permitirá reduzir a incidência da infeção e o número de doentes com complicações da mesma nas próximas décadas.

     

    Definição

    Hepatite é um termo genérico que significa inflamação do fígado. São muitas as causas de hepatite: vírus, álcool, doenças metabólicas, autoimunidade e vários medicamentos. A hepatite C é uma doença inflamatória do fígado, provocada pela infeção com o vírus da hepatite C.

     

    Como se transmite a hepatite C?

    A hepatite C transmite-se geralmente através do contacto com sangue contendo o vírus. Não é necessário separar roupas ou utensílios de cozinha usados pelos portadores desta doença. Exemplos de como o vírus se pode transmitir, estão indicados a seguir:

    • Transfusão de sangue ou derivados (plasma, fatores da coagulação) antes de 1992. O risco de transmissão na atualidade é quase nulo.
    • Partilha de agulhas ou outro material para injetar drogas.
    • Tatuagens com material não esterilizado.
    • Perfuração de orelhas, nariz ou outra parte do corpo com agulhas não esterilizadas (piercing).
    • Acupunctura com agulhas não esterilizadas.
    • Partilha de utensílios para aspirar drogas.
    • Picadas acidentais com agulhas usadas ou outras causas de contacto acidental com sangue. Esta é uma preocupação para os profissionais de saúde.
    • Partilha de objectos cortantes que possam estar contaminados com sangue, como lâminas de barbear, corta-unhas, tesouras ou escovas de dentes.
    • Sexo não protegido: o risco é maior naqueles com múltiplos parceiros sexuais ou em homens que têm sexo com homens. Os atos sexuais que podem lesar tecidos do corpo e facilitar o contacto com sangue aumentam o risco da transmissão do vírus. O risco de transmissão sexual é próximo dos 2-5%.
    • Um recém-nascido de mãe com hepatite C pode ser infetado (raramente, em menos de 5% dos casos).

     

    Quais os sintomas da hepatite C?

    A maioria das pessoas com hepatite C não tem sintomas quando são infetados pela primeira vez. Algumas podem ter queixas semelhantes a uma gripe, com febre, cansaço, dores musculares e articulares. Raramente, pode haver náuseas e vómitos, urina escura e cor amarela da pele e dos olhos (icterícia). Alguns conseguem eliminar o vírus, mas a maioria evolui para uma infeção crónica, ou seja, para toda a vida. A progressão para cirrose é lenta (20 ou mais anos). O sintoma mais frequente da doença hepática crónica é o cansaço, mas este pode ocorrer ocasionalmente e ser atribuído a outras causas. Mais raramente, o doente apresenta-se com uma complicação da cirrose (ascite, hemorragia digestiva) ou já com um tumor maligno do fígado (carcinoma hepatocelular).

     

    Como é que se faz o diagnóstico da hepatite C?

    A hepatite C detecta-se muitas vezes num exame de rotina ou quando alguém se oferece para dar sangue. Usam-se vários testes laboratoriais para detetar a infeção:

    • Enzimas hepáticas (transaminases ou aminotransferases). Determina a actividade das enzimas do fígado. Valores elevados sugerem lesão hepática, mas não são específicos de infeção pelo vírus da hepatite C (podem ter outras causas).
    • Anticorpo (anti-VHC). Este é um teste que procura anticorpos contra o vírus da hepatite C no sangue. O teste positivo significa que o indivíduo teve contacto com o vírus e, na quase totalidade dos casos, infeção crónica.
    • ARN-VHC e genotipagem. São testes que permitem determinar a quantidade de vírus no sangue (carga viral) e o seu genótipo, o que influencia o tipo de tratamento a escolher. Só existe hepatite C em actividade quando o ARN- -VHC é positivo.

    Antes de iniciar tratamento é importante caracterizar a rigidez, denominada fibrose, do fígado. A elastografia hepática (Fibroscan®) é um método não invasivo, indolor, semelhante a uma ecografia e o mais utilizado para esta avaliação, em detrimento da biopsia hepática, a qual se reserva para casos especiais. O Fibroscan® pode ser repetido quantas vezes se entender e demora 2 minutos a executar. A precisão no diagnóstico da cirrose é próxima dos 80%.

     

    Tratamento

    A Hepatite C tem cura. Todos os doentes infetados de forma crónica com o vírus da hepatite C, sem contraindicações e que desejem ser tratados, devem ser considerados para terapêutica, quer tenham ou não experiência prévia em tratamento ou cirrose, inclusive descompensada.

    A terapêutica da Hepatite C evoluiu significativamente nos últimos anos , estando atualmente disponíveis regimes sem interferão, cuja duração pode variar entre 12-24 semanas de tratamento, com elevada eficácia (>90%), facilidade de utilização e tolerância.

    O planeamento, avaliação, escolha da terapêutica e seguimento deve ser efetuado por médico experiente e tendo em conta as normas nacionais e internacionais. Compete ao doente,  e é de extrema importância para o sucesso do tratamento, o cumprimento rigoroso de toda a medicação e indicações do médico.

    Após o tratamento podem existir 2 tipos de doentes: os que responderam e os que não responderam. No primeiro grupo, alguns doentes ter alta da consulta, outros vão permanecer em vigilância já que o seu fígado apresenta lesões irreversíveis (cirrose) apesar do tratamento efetuado. A vigilância em consulta tem como objetivo principal detetar complicações relacionadas com potencial evolução das lesões do fígado.

    Hepatites Víricas

    A hepatite é uma doença que provoca fenómenos inflamatórios no fígado. Conhecida desde os tempos da antiguidade tem sido responsável por numerosas epidemias.

    As hepatites na sua grande maioria são causadas por agentes infecciosos microscópicos, denominados vírus. São portanto doenças transmissíveis.
    A sua importância em termos de saúde pública e individual advém do facto de, além dos focos epidémicos, poder nalguns casos (felizmente uma minoria) conduzir a consequências graves e por vezes fatais.

    Existem cinco tipos principais de hepatites víricas, correspondentes às cinco primeiras letras do alfabeto: A, B, C, D, E. Além de serem provocadas por vírus bem diferentes entre si, as suas consequências são também muito díspares. As mais frequentes em Portugal são a A, a B e a C. A hepatite D (delta) além de raríssima, só surge praticamente em toxicodependentes com consumo de drogas intravenosas e exclusivamente associada à hepatite B. A hepatite E raramente é descrita na Europa Ocidental.

    As formas de transmissão são diferentes. A hepatite A e a hepatite E são transmitidas de forma fhamada “fecal-oral”. Dado que os vírus se eliminam pelas fezes, as mãos mal lavadas poderão ser fonte de transmissão se manipularem alimentos ou através do contacto com outras pessoas. A hepatite B, C e D transmitem-se de forma parentérica e sexual. Dado que estes vírus circulam na corrente sanguínea qualquer contacto com sangue ou instrumento contaminado poderá transmiti-las. O contágio por via sexual também se verifica, se bem que pouco frequente na hepatite C, apenas em 5% dos casos.

    Todas são potenciais causadoras da chamada hepatite aguda, frequentemente assintomática, mas que nalguns casos, é susceptível de provocar icterícia. A hepatite aguda em cerca de 1% dos casos pode complicar-se com o aparecimento de um quadro denominado de hepatite fulminante, com elevadíssima mortalidade, em que por vezes a única salvação é o transplante hepático de urgência. A importância das hepatites B e C reside no facto de se poderem tornar crónicas, se as alterações das análises hepáticas (transaminases) persistirem para lá de um período de 6 meses.

    Isto ocorre em cerca de 5% das hepatites agudas B e em quase todas as hepatites agudas C (85%). Nesta situação, poderão surgir ao fim de alguns anos lesões hepáticas irreversíveis (cirrose hepática) que nalguns casos obrigam a um transplante hepático. Além do mais, a cirrose hepática é uma doença que se poderá complicar com um tumor maligno do fígado (hepatoma ou carcinoma hepatocelular). Calcula-se que existam em Portugal cerca de 150.000 de indivíduos infectados de forma crónica com o vírus da hepatite B e igual número com hepatite C. São os denominados portadores crónicos.

    Existem alguns medicamentos que poderão atrasar a evolução e nalguns casos curar as hepatites crónicas (hepatite B e C). Para a hepatite C poderá administrar-se Interferão (injectável, três vezes por semana) isoladamente ou em associação com Ribavirina (comprimidos). Trata-se de uma medicação que só é eficaz em 50% dos casos, com potenciais reacções adversas, muito cara, devendo ser empregue durante 6 ou 12 meses, consoante os casos. Para a hepatite B existe o mesmo Interferão, além de outros comprimidos denominados Lamivudina. O tempo de tratamento é em geral de 6 a 12 meses. A eficácia ronda os 15-45%.

    A única forma verdadeiramente eficaz de prevenir as hepatites é através da vacinação. Neste momento, já é possível a prevenção de três hepatites víricas: a hepatite A, a hepatite B e a hepatite Delta (por estar sempre associada à hepatite B).

    No entanto devemos tomar a atitude da prevenção universal: todo o instrumento cirúrgico e não cirúrgico (tesoura, escova de dentes, material dentário, material utilizado em tratamentos de estética) deverá ser correctamente limpo e se possível esterilizado; limpar com álcool não é suficiente. Toda a precaução deve estar presente nas relações sexuais.

    Existem três tipos de vacinas: a vacina da hepatite A para a hepatite A; a vacina da hepatite B para a hepatite B e para a hepatite delta; a vacina combinada (hepatite A e hepatite B) que confere protecção às duas hepatites. Infelizmente não existe ainda vacina para a hepatite C.

     

     

    Hepatite
    A
    B
    C
    D
    E
    Portugal
    sim
    sim
    sim
    muito rara
    não
    Ano de descoberta
    1973
    1965
    1989
    1977
    1990
    Hepatite fulminante
    rara
    rara
    ?
    frequente
    20% das grávidas
    Transmissão
    Fecal – oral
    Parentérica
    sexual
    Parentérica sexual
    Parentérica sexual
    Fecal – oral
    Relação com a toxicodependência
    +
    ++
    +++++
    ++++
    Evolução para a cronicidade
    não
    5%
    85%
    Variável, até 70%
    não
    Hepatite crónica e cirrose
    não
    sim
    sim
    sim
    não
    Portadores crónicos (Portugal)
    não
    150.000
    150.000
    15.000 ?
    não
    Tratamento
    Não
    necessita
    Interferão
    Lamivudina
    Interferão Ribavirina
    ineficaz
    Não
    necessita
    Vacina
    sim
    sim
    não
    sim
    não
    Vacina (doses)
    2
    3
    = Hepatite B
    Quadro 1. Tipos principais de hepatites.

    Quem vacinar? A vacina da hepatite B está incluída no Programa Nacional de Vacinação, devendo a primeira dose ser efectuada ainda no Hospital ou Maternidade.

    A vacina da hepatite A é facultativa em Portugal. Os grupos que têm uma indicação maior para serem vacinados contra a hepatite A são os toxicodependentes, pessoas que viajem por países de África, Ásia ou América Latina, militares, trabalhadores que lidam com alimentos, funcionários do lixo e esgotos, doentes com cirrose hepática, trabalhadores das creches e infantários.

    Como vacinar? De um modo geral, antes dos 15 anos de idade, recomendamos a vacinação com a vacina combinada, que confere protecção em simultâneo contra a hepatite A e hepatite B. Esta consta de três doses, aos 0, 1 e 6 meses. Se se já tiver efectuado a vacina da hepatite B poderá administrar-se a vacina da hepatite A que só necessita de uma aplicação de duas doses, aos 0 e 6 meses.

    Após os 15 anos recomendamos que se efectue a determinação prévia dos marcadores da hepatite A (anti-VHA total) e hepatite B (AgHBs, anti-HBc, anti-HBs). A administração do tipo de vacina dependerá dos resultados.

    Os nomes comerciais das vacinas são os seguintes: Havrix® (hepatite A), Engerix-B® (hepatite B), Recombivax® (hepatite B), Twinrix® (hepatite A e hepatite B). Todas têm duas formas de apresentação, uma para uso pediátrico e outra para adultos. A vacina da hepatite A e a vacina combinada só deverão ser administradas a partir do 1 ano de idade.

    Icterícia

    O que é?

    É uma condição caracterizada pela colocação amarelada da pele, conjuntivas e membranas mucosas como resultado da deposição de um pigmento, a bilirrubina. Pode ainda estar associada a outros sintomas como comichão difusa, colúria (urina escura) e acolia (fezes claras).

     

    Quais são as causas?

    Apesar de geralmente associada a doenças do fígado e vias biliares, são múltiplas as possíveis causas e perante um quadro e icterícia deve ser sempre consultado um médico e realizada uma avaliação aprofundada para esclarecimento da situação.

     

    Como se diagnostica?

    Para o correto diagnóstico de um quadro de icterícia o médico deve realizar uma história clinica completa, que deve incluir o tempo de evolução do quadro, a pesquisa de outros sintomas e sinais, como dor abdominal, febre ou comichão, antecedentes pessoais e familiares, viagens recentes e contactos com tóxicos, incluído medicamentos, drogas recreativas, álcool e produtos naturais. Deve ainda ser realizado exame físico que poderá apontar para algumas causas e orientar os exames complementares a solicitar, que poderão incluir análises ao sangue, exames de imagiologia como ecografia abdominal ou outros.

     

    Como se trata?

    O tratamento dependerá da causa específica para cada doente, no caso de uma hepatite viral o tratamento será específico da mesma, no caso de obstrução biliar por cálculo a realização de CPRE aliviará a obstrução com resolução do quadro, por exemplo.

    Incontinência Anal

    Chama-se incontinência anal à passagem involuntária de gases ou fezes ou à incapacidade de adiar a expulsão das fezes para uma ocasião adequada.

    Incontinência Anal

    O que é?

    Chama-se incontinência anal à passagem involuntária de gases ou fezes ou à incapacidade de adiar a expulsão das fezes para uma ocasião adequada.

    Trata-se de um problema muito perturbador, mais frequente do que se pensa, afectando a pessoa física, emocional, social e financeiramente. A sua frequência é maior na mulher e nos idosos de ambos os sexos. Também pode ocorrer nas crianças com mais de 4 anos, sendo por vezes transitória.
    Muitas pessoas com incontinência anal têm vergonha de falar com o seu médico acerca deste problema, por pensarem que nada as pode ajudar.
    Contudo, existem alguns tratamentos efectivos para resolver este problema.

     

    Qual é o mecanismo normal de continência?

    Para se perceber o que é a incontinência é útil perceber os mecanismos da continência fecal. Normalmente o intestino e o anel muscular à volta do ânus (esfíncter anal) funcionam em conjunto para assegurar que a saída das fezes ocorra em ocasião e local adequados. O recto (que é a porção final do intestino) funciona como reservatório de fezes e a sua capacidade pode aumentar se o conteúdo aumentar, tornando possível adiar a defecação. A sensação rectal indica que o recto tem fezes, e então sabe-se que é hora de ir à casa de banho. Se tal não for possível, o esfíncter anal, em vez de se relaxar (abrir) para deixar sair as fezes, contrai-se impedindo a sua passagem. Este mecanismo é muito importante para manter a continência.

    O esfíncter anal é constituído por dois componentes:
    • o interno (esfíncter anal interno), que mantém a pressão do ânus em repouso;
    • o externo (esfíncter anal externo), que fornece protecção extra quando exercemos qualquer contracção muscular ou quando tossimos ou espirramos.

    Os músculos e os nervos que estão associados ao esfíncter anal são fundamentais para a continência.

     

    Quais são as causas de incontinência?

    Na maioria dos casos de incontinência há uma lesão do esfíncter anal. Nas mulheres esta lesão ocorre frequentemente durante o parto, especialmente quando este é prolongado ou difícil, com uso de fórceps (“ferros”) e/ou episiotomia alargada. A episiotomia é um corte efectuado para alargar a fenda vaginal, facilitando o nascimento do bebé. Uma mulher jovem habitualmente consegue compensar a fraqueza muscular durante muitos anos . Mais tarde, com a idade, os músculos que sustentam a vagina e o ânus (músculos pélvicos) enfraquecem podendo surgir então a incontinência. A lesão do esfíncter também pode ocorrer durante a cirurgia anal a fístulas, fissuras ou hemorróidas.

    A lesão dos nervos, que controlam a força do esfíncter e a sensibilidade rectal, é também uma causa comum de incontinência fecal. O dano das estruturas nervosas pode suceder nas seguintes situações:
    • Durante o parto
    • Esforços intensos e prolongados para evacuar (prisão de ventre)
    • Doenças como a diabetes, traumatismos ou tumores da medula espinal, na esclerose múltipla ou noutros problemas neurológicos.

    A obstipação (“prisão de ventre”) com retenção de fezes duras no recto (fecalomas), pode contribuir para a incontinência por alteração da sensibilidade. Esta situação ocorre sobretudo em pessoas idosas, acamadas e em doentes com Doença de Parkinson.

    A incontinência pode também ser devida à perda de elasticidade do recto ou à redução da sua capacidade. Nesses casos o recto, deixa de poder acumular fezes e fica cheio mais depressa. Há então sensação imperiosa de evacuar, por vezes de grande intensidade. A cirurgia e a radioterapia podem deformar e reduzir a capacidade do recto, assim como a doença inflamatória intestinal também pode diminuir a sua elasticidade.

    O uso de medicamentos que diminuam a força do esfíncter, que causem ou agravem a obstipação ou que provoquem diarreia, pode complicar o problema.

    Também em várias situações de diarreia pode surgir incontinência, porque é mais difícil reter fezes líquidas do que fezes moldadas.

    Se verificar que há perda de sangue associada à dificuldade em controlar as fezes deve consultar rápidamente seu médico. Este sinal pode indicar inflamação do intestino (colite), ou um tumor rectal, situações que requerem rápida avaliação.

     

    Como se avalia a causa de incontinência?

    Numa consulta inicial avaliam-se a gravidade e as consequências da incontinência na a vida diária. A história clínica é o elemento mais útil para analisar os sintomas da incontinência e determinar as suas causas possíveis.

    SINTOMAS
    – Perda de gases
    – Perda de fezes líquidas ou sólidas
    – Diarreia
    – Corrimento anal
    – Urgência em defecar
    – Roupa interior suja com fezes
    – Uso de pensos
    – Difícil higiene anal

    Por exemplo, na mulher, um passado com múltiplos partos ou partos traumáticos (com fórceps ou episiotomias), esforços para evacuar prolongados ou história de cirurgia pélvica, pode orientar para a pesquisa de lesão do músculo ou nervo.

    Um exame da região anal e vaginal é indispensável podendo detectar de imediato uma lesão do esfíncter anal.

    Para obter uma evidência mais objectiva, são necessários estudos adicionais, que ajudem no início a avaliar a área anal e depois a monitorizar os progressos do tratamento. A manometria anorectal é um exame onde uma pequena sonda é colocada no ânus para registar as pressões de repouso e de contracção. Este teste pode demonstrar se o esfíncter anal tem ou não força suficiente. A insuflação de um balão no recto permite avaliar o reflexo de relaxamento do ânus e testar a sensibilidade. A electromiografia é outro teste que determina se os nervos dos músculos anais estão a funcionar adequadamente. A ecografia endoanal consiste na colocação de uma sonda no ânus para realização de uma ecografia que permite avaliar a morfologia do músculo e a existência de zonas lesadas.

     

    O que pode ser feito para corrigir o problema?

    Se existe uma doença importante associada à incontinência (colite ulcerosa, diabetes, ou outras) o seu correcto tratamento e controlo são indispensáveis. Se existir um prolapso, com saída da mucosa rectal para o exterior, é essencial que este seja corrigido.

    Nos outros casos, quando a incontinência é ligeira, o tratamento pode ser simples, com alterações da dieta e o uso de medicamentos que aumentem a consistência das fezes. A realização de exercícios em casa (treinos esfíncterianos), que fortalecem os músculos anais, ajuda nestes casos.

    Em certos casos recomenda-se a realização de biofeedback. Este método consiste na utilização de uma sonda ligada a um computador que permite controlar a actividade voluntária do esfíncter anal. Também se poderá incluir um treino da sensibilidade rectal, utilizando um balão que se insufla no recto, reconhecendo o doente os volumes que lhe despertam a sensação de necessidade de evacuar.

    A cirurgia dirige-se às situações em que se documenta uma função anormal dos músculos pélvicos e que não melhoram com as medidas anteriormente tentadas. A maioria das técnicas cirúrgicas tentam restaurar o mecanismo muscular, embora possam não ter a eficácia desejada em alguns casos.

    Estão a ser avaliadas novas terapêuticas, como a aplicação de pomadas locais e técnicas cirúrgicas inovadoras, como a inserção de um esfíncter artificial.

    Nas raras situações em que nada pode ser feito para melhorar a continência, recomenda-se a utilização de tampões anais, cuecas impermeáveis ou resguardos, adaptados a cada situação, que permitem tornar a vida mais confortável.

    Síndroma do Intestino Irritável

    O que é o intestino irritável?

    A síndroma do intestino irritável é, vulgarmente, conhecida como “colite nervosa”, “colite espástica (seca ou húmida)”, “cólon irritável” ou “doença funcional do intestino”. É uma perturbação motora do tubo digestivo que motiva grande diversidade de sintomas digestivos crónicos ou recorrentes (dor abdominal, obstipação, diarreia, sensação de gás e distensão abdominal) na ausência de uma causa orgânica detectável. A designação de intestino irritável deve-se ao facto de, nestes doentes, o tecido muscular do intestino ser mais sensível e reagir mais intensamente a estímulos habituais, como alimentação e stresse. A disfunção muscular pode ocasionar atraso ou aceleração no movimento intestinal e, consequentemente, alteração na frequência, forma ou consistência das fezes. Nos países desenvolvidos, estima-se que, aproximadamente, 20% da população sofre desta doença funcional que é responsável por cerca de 12% das consultas de clínica geral e 25% das consultas de gastrenterologia. Esta doença benigna não apresenta complicações orgânicas a longo prazo, nomeadamente, risco elevado de cancro. Todavia, devido à intensidade e cronicidade dos sintomas, pode provocar desconforto com alteração da actividade diária, em alguns doentes.

    Quais são os sintomas mais frequentes?

    • Dor abdominal, frequentemente desencadeada pela ingestão de alimentos e aliviada pela defecação ou emissão de gases. A dor localiza-se, geralmente, na parte inferior do abdómen.
    • Alteração na frequência, forma ou consistência das fezes (obstipação e/ou diarreia).
    • Distensão e sensação de gás abdominal.
    • Sensação de evacuação incompleta.
    • Presença de mucosidade nas fezes.

    Os doentes apresentam, geralmente, vários destes sintomas durante longos períodos de tempo. Podem associar-se outros sintomas do aparelho digestivo, por exemplo, digestão difícil, bem como sintomas de outros aparelhos (urinário, genital, músculo-esquelético). A sintomatologia é agravada pelo pelo stresse e ansiedade.

    Geralmente não se verifica presença de sangue nas fezes, emagrecimento ou febre. A ocorrência destes sintomas deve ser referida ao seu médico.

    Como confirmar o diagnóstico?

    A história clínica e o exame físico são fundamentais para o diagnóstico. A realização de exames laboratoriais, clister opaco e exames endoscópicos do intestino podem ser necessários para excluir outras doenças.

    Como se trata?

    É fundamental o estabelecimento de uma boa relação médico-doente. O clínico deve aperceber-se das preocupações e do estado emocional do doente. A diminuição do stresse, o repouso e o exercício físico podem contribuir para a redução da frequência e severidade dos sintomas, influenciando positivamente a doença. Também pode ser necessário proceder a alterações na dieta, eliminando alimentos que agravam os sintomas – leite e derivados, gorduras, café, álcool e bebidas gaseificadas. A ingestão de fibra (quer na dieta, quer em suplementos) pode ser aconselhável. A fibra aumenta o volume e humidade fecal, estimulando os movimentos do intestino, todavia, pode aumentar a flatulência. Alimentos ricos em fibra: pães e cereais que contêm farelo ou grão inteiro, vegetais crus (cenoura, bróculos) e frutos (maçã, banana). Alguns medicamentos podem estar indicados no tratamento sintomático da dor abdominal, diarreia ou obstipação, bem como no tratamento de sintomas psíquicos. Todavia, a sua eficácia é variável, pelo que só devem ser utilizados após conselho médico.

    Intolerância à Lactose

    O que é a intolerância à lactose?

    A intolerância à lactose é um problema frequente, causado pela deficiência da enzima lactase. Ocorre em cerca de um terço da população portuguesa, manifestando-se pelo aparecimento de gás e distensão abdominal, diarreia ou cólicas após a ingestão de produtos lácteos.

     

    O que é a deficiência de lactase?

    A lactose é o nome científico do açúcar do leite, que existe nos produtos lácteos. A lactase é a enzima que o organismo produz para digerir o açúcar do leite, de maneira a que os produtos lácteos possam ser facilmente digeridos. Ter deficiência de lactase significa que o organismo não produz lactase em quantidade suficiente para digerir completamente o açúcar do leite. Em consequência, o açúcar do leite fica por digerir no intestino delgado, podendo causar diarreia ou outros problemas como cólicas e gases.

     

    Qual é a diferença entre intolerância ao leite e alergia ao leite?

    Intolerância ao leite não é o mesmo que alergia ao leite. A alergia ao leite é provocada por uma reacção química no organismo, e não por uma deficiência enzimática. Os sintomas de alergia ao leite são vómitos, vermelhidão da pele e diarreia. Se pensa que tem alergia ao leite, consulte o seu médico.

     

    Como se faz o diagnóstico?

    Pode fazer-se por biopsia da mucosa intestinal, por doseamentos do açúcar no sangue ou por medição do hidrogénio no ar expirado após ingestão do açúcar (teste respiratório de hidrogénio). Este último é o método mais simples e rigoroso de avaliação da deficiência de lactase, sendo o usado actualmente.

     

    Que devo fazer? Devo evitar todos os produtos lácteos?

    Não. O leite e produtos lácteos são parte de uma dieta equilibrada. São ricos em nutrientes como proteínas e cálcio, que são vitais para que o organismo seja forte e saudável. O cálcio, por exemplo, é um nutriente especialmente importante para manter a saúde dos dentes e os ossos fortes. Além disso, evitar produtos lácteos não garante que não se esteja a ingerir lactose, uma vez que esta aparece em muitos produtos como bolos, cereais instantâneos, chocolate, gelados, salsichas, batata frita e outros. É importante ler atentamente os ingredientes nos rótulos e pacotes.

     

    Os antiácidos são úteis para resolver o problema?

    Muitas pessoas que têm intolerância à lactose não têm consciência de que esta é a causa dos seus problemas digestivos, uma vez que tomaram sempre leite. Por isso, não sabem como resolver eficazmente o problema. Começam a tomar antiácidos, pensando que é a solução. Porém, os antiácidos não eliminam a causa dos sintomas da intolerância à lactose, porque não suplementam o organismo com a enzima necessária para digerir os produtos lácteos, nem resolvem o problema.

     

    Solução

    A solução poderá ser recorrer aos suplementos enzimáticos de lactase. A lactase é uma enzima, que é fornecida às pessoas com intolerância à lactose em forma de cápsulas. Quando ingeridos com os alimentos lácteos, os suplementos enzimáticos fornecem ao organismo a lactase necessária para digerir confortavelmente o açúcar do leite. Actualmente há disponível nos supermercados leite com lactase adicionada.

     

    Como se tomam os suplementos lácteos?

    As cápsulas devem ser tomadas juntamente com os alimentos lácteos. O número necessário varia com a quantidade de lactase que lhe resta no intestino, e com a quantidade de produtos lácteos (ou lactose) que ingerir. Podem ser necessárias algumas tentativas para determinar o número exacto de cápsulas que precisa. Deve começar por 2 ou 3 e depois ajustar a dose melhor para si. Pode também abrir as cápsulas no leite, agitar e refrigerar durante 24 horas. Durante esse período, a lactose será digerida. Naturalmente se comprar leite já com lactase, não precisa de adicionar as cápsulas. A ingestão das cápsulas não cria habituação, nem é tóxica. Pode tomar a quantidade que precisar e sempre que necessitar.

     

    Quais são os alimentos com mais lactose?

    Leite condensado, leite evaporado, leite em pó

    Leite (gordo, meio-gordo, magro, desnatado, com chocolate)

    Queijo, gelado, natas

    Leite com chocolate

    Manteiga

    O iogurte contém fermentos que digerem parcialmente a lactose, pelo que geralmente é tolerado na quantidade de 1 por dia.

    Outros alimentos com lactose*

    Bolos de pastelaria, caramelos com recheio, aperitivos de queijo, refrescos em pó, pudins instantâneos ou feitos com leite.

    Margarinas. Maionese.

    Alimentos congelados.

    Alimentos infantis.

    Sopas instantâneas, bolos instantâneos, batatas fritas comerciais.

    Café e chá instantâneos.

    Frutas de conserva.

    Enchidos, salames, salsichas industriais.

    Molhos comerciais para saladas.

    Cereais de pequeno-almoço.

    Preparações dietéticas e para diabéticos.

    Licores cremosos.

    Xaropes e antibióticos líquidos.

    Preparados vitamínicos e minerais.

    * Estes alimentos, como têm menor quantidade de lactose, podem ser melhor tolerados.

    Litíase Biliar

    “O que se entende por “Litíase Biliar” ?

    “Litíase” equivale à presença de “cálculos” ou “pedras”, que são pequenas formações sólidas, móveis, numa cavidade de um órgão ou num canal. “Biliar” quer dizer que as “pedras” se encontram nos locais onde a bílis se armazena – vesícula biliar – ou por onde passa até ao duodeno – via biliar (ver Figura).

    litiase_biliar

    Como se formam os cálculos biliares?

    Na grande maioria dos casos formam-se na vesícula biliar. Esta é um pequeno saco, com forma e tamanho de uma pêra, que está junto ao fígado, debaixo das costelas à direita. Armazena a bílis, que é produzida no fígado; depois das refeições a vesícula contrai-se e a bílis passa para o duodeno através das vias biliares. A bílis contém bilirrubina e colesterol. Estas substâncias podem “cristalizar” porque a bílis na vesícula fica mais concentrada. Pode verificar-se apenas a presença de múltiplos cristais, a chamada ”lama biliar”. A junção de muitos cristais forma “pedras” ou cálculos. A maior parte dos cálculos são de colesterol; formam-se quando a bílis está muito concentrada com colesterol ou a vesícula não esvazia adequadamente. Cálculos de outra natureza, por exemplo de bilirrubina, acontecem em certas doenças e situações. Pode existir um ou dezenas de cálculos e geralmente são pequenos.

    Como se podem evitar os cálculos?

    Pela correcção de alguns factores de risco:

    • obesidade
    • dieta com excesso de gorduras animais e poucos vegetais e fruta
    • falta de exercício físico
    • perda rápida de peso, por exemplo em tratamento de obesidade
    • longos períodos de jejum
    • hormonas e contraceptivos

    Outros factores de litíase são: idade (mais de 40 anos), sexo feminino, litíase em familiares, gravidez, diabetes, anemias hemolíticas, cirrose do fígado.

    Quais os sintomas dos cálculos?

    A maior parte das pessoas que têm “pedras” na vesícula não têm queixas devido a elas. Não podem ser atribuídos à litíase biliar as “más-digestões” com as gorduras, azia, aumento do gás intestinal, enjoos, vómitos ou dores de cabeça. Isto é verdade mesmo que estes sintomas apareçam depois de refeições com gorduras ou outros alimentos e mesmo que a pessoa tenha cálculos biliares; daí que não se possa esperar que estes sintomas desapareçam após o tratamento. O sintoma principal é a dor ou cólica na zona do “estômago” ou debaixo das costelas à direita, podendo estender-se para o lado esquerdo, para as costas, para o peito ou restante abdómen; começa de repente, por vezes durante a noite, dura minutos ou horas. Por vezes estas dores são acompanhadas de enjoos, vómitos, suores, palidez. As dores são devidas a entupimento do canal cístico ou da via biliar por um cálculo (ver Fig.). A dor habitualmente é muito intensa e denomina-se cólica biliar. O melhor exame para diagnóstico é a ecografia abdominal. Podem ocorrer complicações por inflamação da vesícula (colecistite), das vias biliares (colangite) ou do pâncreas (pancreatite). Nestes casos a dor pode ser mais forte, durar mais tempo. Pode aparecer febre e icterícia (“olhos amarelos”). Em geral, obrigam a internamento hospitalar.

    Quem deve ser tratado?

    O facto de ter cálculos na vesícula – seja qual for o número ou tamanho deles ou o estado da vesícula – não implica, obrigatoriamente, tratamento no caso de não existirem sintomas. Com efeito, nesta situação, só muito raramente poderão surgir complicações (1-2% por ano).

    Indicações para tratamento:

    • Presença de sintomas – dor – ou outras complicações. Neste caso há alta probabilidade de se repetirem.
    • Ausência de sintomas mas se é um doente: 1. diabético 2. com vesícula calcificada 3. a tomar imunossupressores 4. com residência ou viagens frequentes a países onde há maus cuidados de saúde 5. a perder peso rapidamente.
    • Cálculos nas vias biliares.

    De notar que é importante que a decisão seja tomada após consulta médica, a qual elucidará o doente sobre o problema e as medidas a propor.

    Qual o tratamento da litíase biliar?

    A cirurgia para retirar a vesícula (colecistectomia) é o tratamento ideal da litíase vesicular. Pode ser feita por via “clássica” (por um corte na parede abdominal) ou via “laparoscópica”, em que os instrumentos entram no abdómen por pequenos orifícios. A laparoscópica é a recomendada porque é menos dolorosa, de recuperação mais fácil. O doente deverá procurar um cirurgião que seja experiente na via laparoscópica pois esta técnica é mais difícil de executar e pode ter complicações, se bem que muito raramente. A falta da vesícula não vai causar problemas importantes. Há outros modos de tratamento dos cálculos vesiculares, utilizados muito raramente: dissolução com medicamentos, litotrícia por “ondas de choque” (para partir os cálculos). Mas isto só é recomendado em certas circunstâncias ou quando for muito arriscado operar o doente. No entanto, nestes casos, o problema é que os cálculos podem voltar a aparecer pois a vesícula não é retirada. Quando os cálculos estão nas vias biliares, o tratamento deve ser tentado por exame endoscópico às vias biiares e pâncreas, (chamado CPRE), realizado por gastrenterologistas. Com um endoscópio aborda- -se a via biliar através da sua terminação no duodeno (ver Fig.), abre-se o orifício, podendo os cálculos ser retirados e fazer então outras terapêuticas.

    Manometria ano-retal

    O que é?

    A manometria ano-retal é um exame para estudar as alterações da função muscular do reto (porção terminal do intestino grosso) e do canal anal (segmento que se estende do reto ao ânus).

     

    Para que serve?

    A manometria ano-retal permite avaliar:

    • a resistência do canal à saída do conteúdo (gases ou fezes) existente no reto, quer na ausência de contração do canal anal (pressão em repouso) quer durante a contração do canal anal (pressão de contração voluntária).
    • se o canal anal e o reto funcionam de forma coordenada.

    Durante o exame também se determinam: o volume a partir do qual o indivíduo sente a presença de fezes no reto (volume limiar de perceção), o  volume a partir do qual tem vontade permanente de evacuar (volume de perceção constante) e o volume máximo que o indivíduo tolera (volume máximo tolerável).

    O conhecimento destes volumes permite saber o volume do conteúdo que o reto consegue reter e também permite saber se há alterações da sensibilidade ano-retal (portanto se há capacidade de identificar a presença de gases ou fezes no reto e qual a consistência das fezes).

    Este exame está indicado em certos casos de obstipação crónica (“prisão de ventre”) que não melhoram com as medidas dietéticas e que obrigam ao uso crónico de laxantes e também nos casos de incontinência anal (emissão involuntária de gases ou fezes). Pode também ter indicação antes de intervenções cirúrgicas que possam afetar a continência anal (capacidade de adiar a emissão de gases ou fezes para um momento adequado), nas malformações congénitas que afetam o ânus e o reto ou em situações de traumatismo dos músculos do reto e do ânus.

    A manometria poderá mostrar alterações que não são reveladas em outros exames e que poderão ajudar o seu médico aperceber melhora as suas queixas e a planear melhor o tratamento.

     

    Que preparação é necessária?

    Como para todos os exames endoscópicos é necessário a assinatura de consentimento informado.

    Para realizar o exame poderá ter de efetuar preparação com pequeno clister de água. Não é preciso estar em jejum nem suspender qualquer medicação – apenas não deve aplicar supositórios na véspera, à noite, e no dia da realização do exame. Quando for feita a marcação do exame ser-lhe-á explicado com mais pormenor tudo o que é necessário.

    O exame demora entre 20 a 45 minutos a ser realizado.

    Durante a sua realização vai ficar deitado sobre o seu lado esquerdo, tapado com um lençol ou com calças especiais que lhe serão fornecidas. Uma sonda, habitualmente de plástico flexível, com diâmetro de cerca de 8 mm é introduzida no reto, apenas alguns centímetros. Durante o exame a sonda capta as pressões no canal anal, que serão registadas num aparelho. Por curtos períodos, irá ser necessária a sua colaboração: nessa altura ser-lhe-á pedido para fazer o esforço que habitualmente efetua para evacuar ou, pelo contrário, para realizar o esforço que faz quando quer reter as fezes.

    Após o exame poderá ser, de imediato, dada alguma informação sobre o resultado e depois de efetuadas algumas medições do traçado que ficou registado no computador, será elaborado o relatório final.

     

    Existem riscos?

    Os riscos existem em todos os procedimentos médicos, invasivos ou não. São vários os fatores que aumentam o risco de complicações e estes deverão ser discutidos antes do exame, pesando os riscos e benefícios do mesmo.

    O exame tem um propósito apenas diagnóstico e não terapêutico, e practicamente não tem riscos associados. Raramente desperta dor, embora possa sentir desconforto; é importante que esteja relaxado. Não é necessária tomar qualquer sedação ou anestesia para a sua realização.

    Após o exame, poderá voltar para casa sozinho, poderá conduzir e realizar todas as suas atividades habituais. Se tiver alguma dúvida não deixe de a colocar ao seu médico e de voltar a expo-la, caso considere necessário, quando for marcar o exame, o que lhe permitirá realizar o exame de forma mais serena e com maior facilidade.

    Manometria esofágica

    O que é?

    É um exame que permite estudar algumas funções do esófago.

     

    Para que serve?

    O esófago é um órgão que se localiza entre a boca e o estômago; tem a forma de um tubo sendo constituído por várias camadas: a mucosa (a mais interna) à qual se segue a submucosa e por último a camada muscular. O esófago tem a capacidade de transportar os alimentos devido à contração dos músculos que constituem a sua camada muscular; estes movimentos de transporte designam-se por movimentos peristálticos ou peristalse. Nas extremidades do esófago existem dois esfíncteres – são zonas que têm uma função semelhante às das portas e que constituem uma barreira – na extremidade superior, entre a boca e o esófago, localiza-se o esfíncter esofágico superior que se abre quando engolimos deixando passar os líquidos ou alimentos para o esófago e na sua extremidade inferior, entre o esófago e o estômago, o esfíncter esofágico inferior, que também se abre para deixar passar para o estômago os alimentos transportados ao longo do esófago. De um modo geral, normalmente ambos os esfíncteres estão fechados (existindo neles uma determinada pressão) só se abrindo quando engolimos; a abertura dos esfíncteres denomina-se por relaxamento.

    A manometria esofágica é o exame que permite estudar a peristalse do esófago, a pressão e o relaxamento dos esfíncteres. Avalia-se assim se o seu esófago tem motilidade normal ou se apresenta alterações que justifiquem as suas queixas. A radiografia do esófago dá também indicações sobre a motilidade mas não o faz de forma tão completa.

     

    Que preparação é necessária?

    Como para todos os exames endoscópicos é necessário a assinatura de consentimento informado.

    Deve estar em jejum, desde a noite anterior. No dia da realização da manometria, deve levar os exames que já tiver efetuado para o seu problema atual. Poderá haver necessidade de suspender, 24 a 72 horas antes, alguns medicamentos que esteja a tomar, para que o resultado do exame não venha alterado; na altura da marcação do exame deverá pois saber informar sobre o nome de todos os medicamentos que anda a tomar.

    Para a sua realização é-lhe introduzido pelo nariz uma sonda, de material plástico, com um diâmetro de cerca de 4 milímetros. O exame realiza-se deitado e durante ele deve estar em repouso, respirando normalmente e não falar; deve também tentar não engolir exceto quando lhe forem administrados pequenos volumes (5 a 10 ml) de água, facto que ocorrerá em intervalos de 20 a 30 segundos.

    A duração do exame é de cerca de 30 minutos e após a sua realização pode retomar a sua vida normal, sem cuidados especiais.

     

    Existem riscos?

    Os riscos existem em todos os procedimentos médicos. A manometria esofágica é um procedimento muito seguro, quase sem riscos associados. É um exame fácil, habitualmente rápido e praticamente indolor, não sendo necessária qualquer tipo de sedação ou anestesia. Raramente pode ocorrer leve dor de garganta, hemorragia nasal e problemas de irritação do nariz e seios nasais.

    Melenas

    Fezes muito escuras, pretas, tipo alcatrão, com cheiro fétido, que resultam da digestão de sangue ao longo do tudo digestivo. Não deve ser confundida com as fezes escuras “acinzentadas” que resultam da ingestão de suplementos de ferro oral. É um sinal indicativo, na maioria das vezes, de hemorragia digestiva alta. Deve motivar avaliação médica urgente e avaliação complementar, nomeadamente com a realização de endoscopia digestiva alta. Ver Hemorragia Digestiva Alta.

    Náuseas e Vómitos

    As náuseas correspondem à sensação desagradável de que os vómitos irão ocorrer a qualquer momento. Podem surgir isoladamente, acompanhar episódios de vómitos ou estarem associadas a outros sintomas. Tem uma duração habitualmente superior à dos vómitos.

    Náuseas e vómitos

    Introdução

    As náuseas correspondem à sensação desagradável de que os vómitos irão ocorrer a qualquer momento. Podem surgir isoladamente, acompanhar episódios de vómitos ou estarem associadas a outros sintomas. Tem uma duração habitualmente superior à dos vómitos.

    Os vómitos correspondem à expulsão do conteúdo gástrico, resultante da contracção enérgica das paredes do estômago. É portanto diferente da regurgitação, na qual o conteúdo do estômago passa para o esófago e pode atingir a cavidade oral, praticamente sem esforço.

     

    Quais são as causas?

    Existem muitas causas para as náuseas e vómitos. É importante esclarecer a duração, a frequência com que ocorrem, as características, bem como a presença de sintomas acompanhantes, pois dessa forma poder-se-á obter um diagnóstico mais preciso.

    Assim, se são matinais, ainda sem ter havido ingestão de alimentos, podem traduzir gravidez, consumo excessivo de álcool, insuficiência renal ou diabetes mellitus. Da mesma forma, se ocorrem várias horas após a ingestão de alimentos e são repetidos, podem ser o resultado de obstrução do tubo digestivo.

    Se os vómitos forem constituídos sobretudo por sangue, vivo ou escuro, traduzem uma hemorragia digestiva, podendo esta resultar mais frequentemente de úlcera gástrica ou duodenal complicadas, ou da rotura de varizes do esófago ou estômago.

    Se surgem associados a diarreia, podem corresponder a intoxicação alimentar ou gastroenterite. Se forem acompanhados de dor abdominal podem ser manifestação de úlcera gástrica ou duodenal, ou traduzir cólica biliar, colecistite aguda (inflamação da vesícula biliar), pancreatite aguda (inflamação do pâncreas) ou obstrução do intestino.

    Causas não relacionadas com o aparelho digestivo podem ser: enxaqueca, meningite, tumores cerebrais e doenças do ouvido interno. Neste último caso há, habitualmente, um quadro de vertigens proeminente.

    Podem também, ocasionalmente, ser manisfestação de doença psíquica, hipertiroidismo ou doença cardíaca.

     

    Os medicamentos podem provocar náuseas e vómitos?

    Muitos medicamentos podem condicionar o aparecimento de náuseas e vómitos, pelo que a sua toma deve ser analisada. Destes, salientam-se os fármacos usados na quimioterapia, a aspirina e alguns anti-inflamatórios não esteróides, a morfina e derivados, alguns medicamentos utilizados no tratamento de arritmias cardíacas e da hipertensão arterial, alguns antibióticos e os anticoncepcionais orais.

     

    Quais são as complicações dos vómitos?

    As primeiras complicações são a desidratação e a perda de substâncias como o potássio e outros elementos que existem no suco gástrico. Em situações crónicas e de gravidade, podem igualmente ocorrer alterações nutricionais, com perda de peso.

    A ocorrência de vómitos de forma crónica pode provocar uma esofagite (inflamação do esófago), pela exposição repetida do esófago ao conteúdo ácido do estômago. Por vezes, pode também haver emissão de sangue vivo associado ao vómito, que resulta da laceração da união entre o esófago e o estômago, condicionada pelo esforço.

     

    Como se tratam?

    É necessário corrigir os desiquílibrios provocados pela perda de líquidos. Muitas vezes a hidratação oral é suficiente, mas pode estar indicado tratamento hospitalar para administração de soros e electrólitos.

    Quando apropriado, devem ser efectuados exames complementares de diagnóstico, para esclarecer o quadro e proporcionar o tratamento dirigido à causa. Alguns medicamentos podem eliminar os sintomas, devendo ser receitados pelo médico após avaliação de cada caso.

     

    Pontos importantes

    As náuseas e vómitos têm múltiplas causas.

    Alguns medicamentos podem provocar o seu aparecimento.

    A avaliação médica é necessária para o adequado diagnóstico e tratamento.

    O Fígado – 10 aspetos importantes

    1. O fígado é o segundo maior órgão do corpo (a seguir à pele) e pesa cerca de 1.250 kg.
    2. O fígado tem grandes dimensões: aproximadamente o tamanho de uma bola de futebol.
    3. O fígado está localizado à direita, debaixo das costelas e no segmento superior do abdómen. Não se pode viver sem ele.
    4. O fígado é um dos órgãos mais importantes do corpo humano e é responsável por mais de 5000 funções. Incluindo:– Combate infecções e produz substâncias que evitam hemorragias– Processamento dos alimentos provenientes do intestino;– Produção da bílis, substância que ajuda na digestão;- Armazenamento do ferro, vitaminas e outras substâncias essenciais;- Controla os níveis de gordura, glicose (açúcar) e aminoácidos (constituintes das proteínas) no sangue;

      – Desintoxicação e excreção de substâncias tóxicas para o corpo.

    5. Outra forma de olhar para a função do fígado é pensar em como este nos ajuda a:- Produzir rapidamente energia, quando dela necessitamos;- Prevenir reduções de “combustível” do organismo através do armazenamento de algumas vitaminas, minerais e açúcares;- Controlar a produção e excreção do colesterol;- Metabolização do álcool;- Armazenamento do ferro;

      – Monitorização e manutenção dos níveis correctos de mediadores químicos e fármacos no sangue;

      – Ajudar o organismo a resistir à infecção produzindo factores de imunidade e removendo as bactérias e suas toxinas da corrente sanguínea.

    6. O fígado é o único órgão que recebe sangue de duas fontes. O sangue é fornecido pela artéria hepática (sangue arterial) e pela veia porta (sangue venoso) que parte do intestino. Todo o sangue proveniente do intestino atinge o coração e os pulmões, após a passagem pelo fígado.
    7. O fígado tem uma notória capacidade de regeneração. Podem ser removidos mais de três quartos do fígado que as células restantes voltam a multiplicar-se sendo possível atingir o tamanho original após um determinado período de tempo.
    8. As lesões no fígado inibem a sua capacidade de combater a infecção e de realizar outras funções necessárias para manter o organismo saudável.
    9. A hepatite C é causada por um vírus (VHC – vírus da hepatite C) que se transmite através do contacto com sangue infectado. O vírus afecta principalmente o fígado causando lesões cuja gravidade é muito variável. A falência hepática decorrente da infecção crónica pelo VHC é a principal causa na Europa de transplante do fígado.
    10. Existem vários tipos de doenças do fígado, mas as mais importantes são: Doença hepática alcoólica (causada pelo consumo excessivo de álcool); Hepatites virais B e C; O cancro do fígado é também uma forma de doença hepática já que surge quase exclusivamente em pessoas com cirrose hepática. Doenças metabólicas do fígado em crianças; Doenças autoimunes do fígado;

    Obesidade

    Existe alguma relação entre a obesidade e o risco de doenças do aparelho digestivo?

    Sim, existe um risco aumentado de ter doenças do aparelho digestivo e também de ter sintomas relacionados com este aparelho. É mais provável que uma pessoa obesa tenha doença de refluxo gastroesofágico com ou sem esofagite, e queixas de dores no abdómen, vómitos, flatulência ou diarreia.

     

    O que é que provoca essa associação?

    A associação do refluxo com a obesidade tem sido justificada sobretudo pelo aumento da pressão abdominal, apesar de não certo que seja este o mecanismo principal. Os obesos também têm frequência aumentada de hérnia do hiato, que contribui para o refluxo. Sabe-se ainda que esta associação é mais marcada nas mulheres antes da menopausa. O ganho de peso contribui para um agravamento dos sintomas e a perda de peso para a sua melhoria. A colocação de bandas para o tratamento da obesidade pode agravar o refluxo. Em contraste a cirurgia de by-pass gástrico diminui de forma constante os sintomas de refluxo.

     

    As pessoas obesas têm maior risco de cancro?

    Sim, de forma bem evidente. Está bem demonstrado um aumento da frequência de cancro do esófago, estômago, pâncreas, vesícula, cólon e reto. No entanto a diferença mais significativa diz respeito ao risco aumentado de cancro do fígado.

     

    E qual o efeito da obesidade no fígado?

    A obesidade aumenta o risco de ter fígado gordo, que também se associa à diabetes e a alterações das gorduras no sangue (elevação do colesterol). Em alguns casos o fígado gordo pode levar a inflamação, conhecido como esteatohepatite não alcoólica, que poderá evoluir para cirrose e cancro do fígado. Além disso, nos indivíduos obesos, as hepatites podem ter uma evolução mais grave e responder pior ao tratamento. Como posso saber se tenho peso a mais? A determinação do Índice de Massa Corporal (IMC), que relaciona o peso e a altura, pode fornecer indicação sobre se tem peso a mais ou a menos.

    IMC

    Adexo

    Obstipação

    Habitualmente, considera-se obstipação se há dificuldade persistente em evacuar, se a evacuação obriga a grande esforço, se é necessário recorrer a manobras digitais para ajudar a saída das fezes, ou se há duas ou menos evacuações por semana (ou se houve uma redução recente do número de evacuações habitual).

    Obstipação

    A obstipação, habitualmente designada por “prisão de ventre”, é uma queixa muito vulgar, que pode causar grande mal-estar e levar as pessoas a procurarem ajuda de um médico. Na maior parte dos indivíduos saudáveis a frequência das evacuações é inferior a três vezes por dia e superior a três vezes por semana, mas não há um padrão de funcionamento intestinal igual para toda a gente.

     

    Como se define?
    Habitualmente, considera-se obstipação se há dificuldade persistente em evacuar, se a evacuação obriga a grande esforço, se é necessário recorrer a manobras digitais para ajudar a saída das fezes, ou se há duas ou menos evacuações por semana (ou se houve uma redução recente do número de evacuações habitual). Nestes casos observa-se, muitas vezes, a emissão de fezes duras e fragmentadas, sensação persistente de mal-estar e desconforto no abdómen e verifica-se, frequentemente, necessidade de recorrer a medicamentos ou clisteres para ajudar a evacuação.

     

    Quais as causas?
    As fezes são constituídas pela parte dos alimentos não assimilada, maioritariamente compostas por fibras. Estas têm a capacidade de absorver água existente no intestino, contribuindo assim para que as fezes sejam mais volumosas e, simultaneamente, mais moles, e como tal, mais fáceis de expulsar.
    O tempo que as fezes permanecem no intestino determina o teor de água que as compõem. Qualquer situação que leve a uma maior lentidão no funcionamento intestinal torna as fezes mais duras e menos volumosas, provocando obstipação.
    O aparecimento da obstipação pode dever-se a doenças que afectam, secundariamente, o intestino, como, por exemplo:

    Doenças neurológicas: esclerose múltipla, doença de Parkinson, lesões da medula.
    Doenças metabólicas: diabetes, hipotiroidismo, insuficiência renal.
    A obstipação pode, também, ser causada por doenças próprias do intestino ou do ânus, como é o caso de inflamação, zonas de estenose (aperto) no intestino, tumores, fissura anal, e outras. Pode, ainda, ser provocada ou agravada por diversos medicamentos.
    Todavia, frequentemente, não se encontra nenhuma destas causas, estando, então, a obstipação relacionada com um funcionamento lento do intestino (sem causa identificável), ou com um
    intestino que funciona bem, mas que tem dificuldade em desencadear a saída das fezes, as quais se acumulam na zona terminal do intestino.

     

    Como se avalia e trata?
    Uma avaliação detalhada das queixas e um exame médico completo podem fornecer dados importantes para esclarecer a situação. Um exame ano-rectal (exame proctológico) é rápido e praticamente indolor, pelo que não deve ser recusado.
    Podem ser necessárias análises ao sangue ou ainda outros exames: clister opaco, colonoscopia e, em
    casos seleccionados, medições do tempo de trânsito cólico, defecografia ou manometria ano-rectal.

     

    Atitudes terapêuticas
    1. A primeira atitude consiste em disciplinar a dieta, ingerindo alimentos com fibra e assegurando uma ingestão suficiente de líquidos. Note que pode ser necessário algum tempo para estas medidas fazerem efeito. Também, a actividade física regular (marcha, ginástica, natação) pode ser uma ajuda preciosa.
    2. Deverá contactar com o seu médico
    • Para avaliar se os medicamentos que toma estão a agravar a obstipação.
    • Se tiver perdas de sangue pelo intestino ou se surgir anemia.
    • Se estiver a perder peso.
    • Se a obstipação apareceu recentemente ou se se agravou sem causa aparente.

    3. Em situações mais arrastadas pode ser necessário recorrer a laxantes, mas só o seu médico sabe qual o laxante mais indicado e quando o deve tomar. Como qualquer outro medicamento, os laxantes também têm efeitos secundários.
    4. Em casos muito especiais, pode estar indicada intervenção cirúrgica.

    Alimentos ricos em fibra
    Cereais: farelo, flocos, pão e bolachas integrais.
    Fruta: ameixa, pêssego, frutos de polpa, frutos tropicais.
    Vegetais: couve, feijão, grão, ervilha, fava, salada.
    A ingestão destes alimentos deve ser feita de forma gradual para evitar aumento do meteorismo (gás no bdómen).

     

    Pancreatite

    O que é pancreatite?

    Pancreatite = Pâncreas + ite.

    O pâncreas é um órgão do aparelho digestivo localizado atrás do estômago e que desempenha duas funções fundamentais:

    1. Secreção de enzimas digestivos, que participam na digestão de proteínas, hidratos de carbono (açucares) e lípidos (gorduras).
    2. Secreção e libertação para o sangue de duas hormonas – insulina e glicagina, as quais são fundamentais na regulação dos níveis de açúcar no sangue.

    O sufixo “ite” significa inflamação, logo pancreatite é uma doença caracterizada por uma inflamação do pâncreas, a qual surge quando os enzimas pancreáticos normalmente utilizados na digestão dos alimentos, são libertados dentro do pâncreas, iniciando um processo de digestão do orgão.

    Existem 2 formas de pancreatite: aguda, de duração relativamente curta e crónica, quando a inflamação persiste durante anos.

     

    Quais as causas de pancreatite aguda?

    Na maioria dos casos a pancreatite aguda é causada por cálculos (pedras) na vesícula e vias biliares ou ingestão acentuada de bebidas alcoólicas. Pode igualmente ser devida a infecções, traumatismos, medicamentos, doenças metabólicas e surgir após cirurgia abdominal. Em cerca de 10 a 15% dos casos, a causa é desconhecida.

     

    Quais as causas de pancreatite crónica?

    Em mais de 70% dos casos é devida a ingestão de bebidas alcoólicas em excesso. Outras causas menos frequentes são as doenças metabólicas, podendo existir formas familiares (pancreatite hereditária).

     

    Quais são os sintomas de pancreatite?

    A pancreatite aguda caracteriza-se por dor intensa na região superior do abdómen que irradia para o dorso (costas), descrita muitas vezes como uma queimadura em cinturão que se agrava com a ingestão de alimentos, sobretudo gorduras; náuseas e vómitos e, nalguns doentes pode igualmente surgir febre e sudação, aumento na frequência cardíaca (taquicardia) e icterícia (coloração amarela dos olhos e pele).

    Os sintomas de pancreatite crónica são semelhantes aos da pancreatite aguda. A maioria dos doentes refere dor constante e intensa conduzindo à utilização frequente e continuada de analgésicos. É usual emagrecimento por má absorção de alimentos, resultante da ausência de produção de enzimas digestivos e diabetes devido à destruição de células produtoras de insulina.

     

    Quais são as complicações da pancreatite?

    A pancreatite pode afectar a função de vários órgãos como o coração (hipotensão e falência cardíaca), o rim (insuficiência renal) e o pulmão (insuficiência respiratória). Pode ser causa de diabetes, acumulação de líquido intra-abdominal (ascite) e formação de quistos ou abcessos no pâncreas.

     

    Como se diagnostica a pancreatite?

    Quando um doente tem sintomas que sugerem pancreatite (dor abdominal irradiando ao dorso acompanhada de náuseas e vómitos) e refere nos seus antecedentes a presença de cálculos na vesícula ou a ingestão de álcool em excesso, a existência de níveis elevados de enzimas pancreáticos (amilase e lípase) no sangue conduz ao diagnóstico de pancreatite. São igualmente utilizados para o diagnóstico e seguimento vários exames complementares:

    • Ecografia abdominal e Tomografia Computorizada.
    • CPRE (ColangioPancreatografia Retrógrada por via Endoscópica) – exame endoscópico que permite a visualização dos canais biliares e pancreáticos. Na presença de cálculos nas vias biliares estes podem ser extraídos, após a realização de uma esfincterotomia (corte do esfíncter ou músculo que separa os canais biliares do duodeno).
    • Ecoendoscopia, que permite a visualização do pâncreas através do estômago (como se fosse uma Ecografia dentro do estômago).

     

    Como se trata a pancreatite?

    PANCREATITE AGUDA

    O principal objectivo do tratamento é colocar o pâncreas em repouso de forma a travar a inflamação. É necessário internamento hospitalar para administração de soros e analgésicos; não é permitida a ingestão de alimentos durante alguns dias, podendo ser necessária a coloca- ção de uma sonda no estômago através do nariz. Em cerca de 20% dos casos, a gravidade da pancreatite exige internamento nos Cuidados Intensivos para vigilância constante, de forma a evitar a lesão de outros órgãos como o rim, o pulmão ou o coração.

    Um episódio de pancreatite aguda tem uma duração de alguns dias; mais de 80% dos doentes recuperam sem quaisquer sequelas ou complicações; no entanto existem casos muito graves, alguns mortais.

    PANCREATITE CRÓNICA

    É fundamental a abstinência alcoólica; a maioria dos doentes necessita de analgésicos potentes para combater a dor e nalguns casos pode estar indicada a cirurgia. De forma a melhorar o estado nutricional e metabólico dos doentes, é aconselhável a administração de enzimas pancreáticos juntamente com as refeições bem como insulina quando existe diabetes.

    pHmetria esofágica

    O que é?

    É um exame que permite registar, através da medição do pH, a presença de ácido refluído do estômago para o esófago. É executado durante um período de 24 horas, de forma ambulatória, enquanto realiza a sua actividade habitual, não necessitando de internamento.

     

    Para que serve?

    Ao medir a “acidez” do esófago avalia se existe refluxo o que pode justificar as suas queixas e/ou as lesões que apresenta a nível do esófago.

     

    Que preparação é necessária?

    Como para todos os exames endoscópicos é necessário a assinatura de consentimento informado.

    Deve estar em jejum, desde a noite anterior.

    Poderá haver necessidade de suspender alguns medicamentos que esteja a tomar (alguns 24 horas, outros 48 a 72 horas e outros entre 7 a 8 dias antes do exame); não deve pois esquecer-se de levar a informação de todos os medicamentos que toma quando for marcar o exame.

    Prévia à sua realização, para determinar o correto posicionamento do electrodo de pH, ser-lhe-á efetuada uma manometria esofágica.

    No início do exame é-lhe introduzido pelo nariz uma sonda fina e maleável, com um diâmetro de cerca de 2 milímetros, ficando outro electrodo sobre a pele.

    O electrodo é posteriormente ligado a um gravador portátil, que será fixado à volta da sua cintura, e onde vai sendo registado, de forma contínua, o pH do esófago. Nele existem alguns botões que possibilitam marcar as horas das refeições, as horas de deitar e de levantar e as horas do início e do fim das queixas (sintomas). Independentemente da marca do aparelho que for utilizado, o mais frequente é existirem três botões: um com o desenho de um coração, que deve pressionar quando tiver sintomas; outro com o desenho de um garfo e uma faca, a pressionar sempre que começar ou acabar de comer e ainda um botão com o desenho de uma cama, onde pressionará quando se deitar ou levantar. Ser-lhe-á dado um impresso onde deverá também registar as horas destes acontecimentos, devendo ser preciso nas horas que regista.

    Deve fazer a sua vida normal, nomeadamente em relação à alimentação e à sua actividade habitual. Alguns cuidados particulares: deve evitar o uso de roupas apertadas ou fios ao pescoço, não pode usar telemóvel, não pode tomar banho, não deve tomar medicamentos, exceto os absolutamente necessários.

     

    Existem riscos?

    Os riscos podem existir em todos os procedimentos médicos. A pHmetria esofágica é um procedimento muito seguro sendo que  até ao momento não são conhecidas complicações graves. Durante e depois do exame poderá sentir um ardor ou sensação de um corpo estranho na garganta, sintomas apenas ligeiros e passageiros.

    Pólipos do Cólon

    O que são?

    Os pólipos do cólon são crescimentos anormais da mucosa do cólon. Existem vários tipos de pólipos, nomeadamente pólipos planos ou pediculados, e a maioria é benigna. Um pólipo só pode ser classificado como benigno depois de removido e analisado na sua constituição celular. Além disso, mesmo os pólipos benignos podem ser percursores de um cancro se não forem removidos. É portanto fundamental o diagnóstico e remoção precoce dos pólipos do cólon na prevenção do cancro do cólon e reto. Como a maioria dos pólipos são assintomáticos, é imprescindível a realização do rastreio. Raramente, alguns pólipos podem manifestar-se com hemorragia ativa, com sangue nas fezes, anemia (por perdas crónicas de sangue) ou diarreia.

    Existem várias doenças genéticas, embora raras, que aumentam o risco de múltiplos pólipos e cancro do colon e reto, por exemplo a Polipose Adenomatosa Familiar.

    A síndrome de Lynch, ou cancro colo-retal hereditário não associado a polipose, é uma síndrome hereditária, a mais frequente, de predisposição genética ao cancro do cólon e reto. As famílias com esta síndrome apresentam risco aumentado de outras neoplasias, nomeadamente, cancro do útero, ovário, vias urinárias, estômago, intestino delgado, pâncreas e vias biliares, pele e sistema nervoso central.

    São vários os fatores ambientais e do estilo de vida que podem contribuir para o risco de pólipos: ingestão excessiva de gorduras na dieta, obesidade, consumo excessivo de álcool e consumo de tabaco. Estes fatores de risco podem ser evitados pelo doente para diminuir o risco de pólipos (e múltiplas outras doenças). Mas convém recordar que diminuir o risco não elimina a possibilidade de ter pólipos.

     

    Como se diagnosticam?

    São vários os meios que possibilitam o diagnóstico de pólipos do cólon.

    Numa primeira abordagem, sobretudo se estão presentes sintomas, o médico poderá realizar o toque rectal, que permite apenas detetar pólipos ou tumores do reto.

    A colonoscopia é o exame complementar de eleição e a 1ª escolha. Apenas a colonoscopia possibilita o diagnóstico e tratamento simultâneo.

    Outras alternativas são a realização de pesquisa de sangue oculto nas fezes e colonografia virtual (através de tomografia computorizada), mas além mais limitadas no diagnóstico, não permitem remover os pólipos.

     

    Como se tratam?

    Os pólipos do colon são removidos com recurso a endoscopia através de polipectomia ou mucosectomia. Raramente alguns pólipos, demasiado volumosos, poderão necessitar de intervenção cirúrgica.

    Proctalgia

    Dor do ânus ou do segmento inferior do reto, sintoma muito frequente em patologias proctológicas como a fissura anal ou a trombose hemorroidária. Ver Hemorroidas e Fissura Anal.

    Sangue nas Fezes

    A presença de sangue nas fezes pode ser causada por uma lesão situada em qualquer ponto do tubo digestivo. Pode estar presente em quantidade muito pequena e não ser visível, sendo detectado apenas por uma análise de pesquisa de sangue oculto nas fezes. Se existir em quantidade suficiente para alterar a aparência das fezes, a sua coloração pode ser importante para o seu médico determinar o local de origem da hemorragia.

    Sangue nas Fezes

    A presença de sangue nas fezes pode ser causada por uma lesão situada em qualquer ponto do tubo digestivo. Pode estar presente em quantidade muito pequena e não ser visível, sendo detectado apenas por uma análise de pesquisa de sangue oculto nas fezes. Se existir em quantidade suficiente para alterar a aparência das fezes, a sua coloração pode ser importante para o seu médico determinar o local de origem da hemorragia.

     

    O que significa?
    A saída de sangue vermelho através do ânus (o termo médico utilizado é rectorragias), frequentemente misturado com as fezes ou com coágulos, geralmente significa que a origem da hemorragia se encontra na parte baixa do tubo digestivo – intestino grosso (cólon), recto ou ânus. Quanto mais perto do ânus a lesão se situar, mais vivo será o sangue. Assim, nas hemorragias com origem no cólon esquerdo, recto ou ânus o sangue é frequentemente vermelho vivo enquanto nas lesões situadas no cólon direito o sangue adquire uma tonalidade vermelha escura ou acastanhada.
    Fezes de coloração negra, tipo borra de café, e de cheiro intenso (o termo médico usado é melenas) ocorrem quando o sangue persiste no tubo digestivo durante algum tempo. Geralmente significam que a origem da hemorragia se situa na parte alta do tubo digestivo (esófago, estômago e duodeno) ou no lado direito do cólon.
    Algumas vezes, a hemorragia do tubo digestivo pode ser muita lenta e em escassa quantidade para causar rectorragias ou melenas, sendo detectada apenas por uma análise às fezes (sangue oculto). Associa-se frequentemente a anemia devido ao ferro que se perde com o sangue (anemia por deficiência de ferro).

     

    Quais as causas mais comuns?
    As causas de sangue nas fezes podem variar desde situações benignas e frequentes, como hemorróidas ou fissuras do ânus, até condições mais graves como úlcera do estômago e duodeno ou cancro do tubo digestivo. A presença de divertículos, malformações vasculares, doenças inflamatórias ou pólipos do cólon e recto são outras causas comuns de sangue nas fezes.

     

    O que fazer?
    Se aparecer sangue nas fezes deve consultar o seu médico assistente para uma avaliação completa. Para
    fazer o diagnóstico ele poderá ter que o examinar e pedir exames de endoscopia (endoscopia digestiva
    alta ou colonoscopia). Estes exames podem também ser necessários no caso da análise de pesquisa de sangue oculto nas fezes ser positiva. A realização anual desta análise, como método de rastreio, pode
    diminuir o número de mortes por cancro do cólon.
    No entanto, sempre que existir suspeita de cancro é necessária uma investigação mais rigorosa, quer a
    análise seja ou não positiva.

     

    Pontos a reter:
    • A presença de sangue nas fezes pode ser causada por uma lesão grave
    • Deve consultar sempre o seu médico assistente
    • Poderá necessitar de realizar exames para uma avaliação completa

    Tumores do Fígado

    O que é?

    O fígado pode ser a origem de tumores primários, isto é, que resultam das células do próprio fígado e de lesões secundárias, provenientes de cancros malignos de outros órgãos. A designação de tumor não tem necessariamente uma conotação maligna, pois qualquer massa ou nódulo – sólido ou quístico – é um tumor, quer seja composto por células normais ou neoplásicas: benignas ou malignas.

     

    Quistos

    Os quistos biliares simples do fígado, que podem ser únicos ou múltiplos e ter dimensões variadas, são lesões não neoplásicas detectadas acidentalmente em exames imagiológicos de rotina. Raramente sofrem alterações de tamanho e não têm consequências, pelo que não exigem controlo. Por vezes é necessário distingui-los do quisto hidático, outrora frequente no sul do país.

    Uma situação diferente é a doença poliquística do fígado, hereditária, associada ou não à doença poliquística renal, cuja progressão pode originar raramente insuficiência hepática.

     

    Tumores benignos

    Entre os tumores benignos, aqueles que na prática clínica têm significado são o adenoma, a hiperplasia nodular focal (HNF) e o hemangioma. A distinção entre eles nem sempre é fácil.

     

    O que posso esperar de um hemangioma?

    O angioma é um tumor de vasos sanguíneos que ocorre em cerca de 5% da população e que, normalmente, não origina sintomas. A ecografia não deixa dúvidas quanto à causa em mais de 80% dos casos, mas quando tal não acontece é difícil de distinguir de outros tumores, mesmo recorrendo a exames mais sofisticados. Pode ser múltiplo e, por vezes, atingir grandes dimensões, mas em qualquer dos casos não tem risco de malignização. A necessidade de cirurgia é excepcional.

     

    O que é um adenoma?

    O adenoma hepático é um tumor benigno raro, ocorrendo quase sempre na mulher tomando contraceptivos orais. O assinalado declínio na sua incidência pensa-se que está relacionado com a redução do teor em estrogénios das pílulas actuais. Quase sempre único, quando múltiplo está normalmente associado a defeitos metabólicos ou ao uso de hormonas anabolizantes. O comportamento dos adenomas é imprevisível, podendo regredir com a suspensão dos contraceptivos, aumentar de tamanho, complicar-se de hemorragia, ou sofrer transformação maligna. Por tudo isto, a remoção cirúrgica pode ser necessária, principalmente quando tem grandes dimensões ou existe a suspeita de malignização.

     

    Tumores malignos

    O carcinoma hepatocelular é o tumor maligno do fígado mais frequente em Portugal e na generalidade dos países (90%), seguido a larga distância pelo tumor das vias biliares (5%).

    … quem está em risco de ter um carcinoma hepatocelular ?

    Essencialmente os doentes com cirrose hepática e, em particular, aqueles com cirrose associada ao vírus da hepatite B (VHB) e vírus da hepatite C (VHC).

    Na infecção crónica pelo VHB o tumor pode, raramente, ocorrer sem cirrose. Dado que actualmente os doentes com cirrose vivem mais tempo, o risco de contrair o carcinoma hepatocelular tem aumentado em todos os países.

    … é possível evitar ?

    É, em muitos casos. Em primeiro lugar através da vacinação contra o VHB, por outro procurando, através do tratamento antivírico, a erradicação do VHC. O controlo das doenças metabólicas como, por exemplo, a hemocromatose evita o tumor. O consumo de álcool deve ser desaconselhado, não só pelo facto de ser indutor de cirrose, mas particularmente pelo seu papel como co-factor na promoção do tumor em outras doenças hepáticas.

    … tem tratamento ?

    O tratamento mais eficaz é cirúrgico, mas é necessário que o tumor seja detectado numa fase precoce. Quando estão reunidas condições para realizar um transplante do fígado, o que nem sempre acontece devido à extensão do tumor, a probabilidade de sobrevivência aos 2 anos é da ordem dos 80%, decaindo para cerca de 50% aos 10 anos. Recentemente, desenvolveram-se tratamentos, ditos ablativos, os quais, em algumas circunstâncias, competem com a cirurgia. Destroem o tumor através da injecção de substâncias necrosantes (ex: álcool) ou da cauterização térmica (ex: radiofrequência). Quando o tumor invade os vasos sanguíneos ou está disseminado restam apenas os tratamentos paliativos.

    Colangiocarcinoma

    Embora raro, a incidência deste tumor tem vindo a aumentar, principalmente o tipo de tumor que se localiza nas vias biliares intra-hepáticas. Está directamente relacionado com processos inflamatórios persistentes das vias biliares, razão porque ocorre mais frequentemente em doentes com colangite esclerosante, com parasitoses que infestam os ductos biliares e com anomalias congénitas dos mesmos ductos. É um tumor de difícil tratamento e com prognóstico sombrio.

    Videocápsula endoscópica

    O que é?

    A videocápsula endoscópica permite visualizar o tudo digestivo, particularmente o intestino delgado e cólon, através de uma cápsula com uma câmara que permite captar imagens à medida que progride entre a boca e o ânus. As imagens capturadas são gravadas num recetor que o doente traz a tiracolo durante o exame e são posteriormente descarregadas num computador. A cápsula é pouco maior que um comprimido e fácil de deglutir.

     

    Para que serve?

    A videocápsula endoscópica é um exame de diagnóstico, não permite obter biópsias ou realizar qualquer tipo de terapêutica. O seu papel é no entanto fundamental no estudo do intestino delgado, sendo várias as suas potenciais indicações, mas sobretudo em situações de hemorragia gastrointestinal não esclarecida pelos exames endoscópicos convencionais (endoscopia digestiva baixa e colonoscopia), diagnóstico e avaliação de Doença de Crohn, rastreio e diagnóstico de tumores do intestino delgado em doentes com síndromes polipóides hereditários.

     

    Que preparação é necessária?

    Como para todos os exames endoscópicos é necessário a assinatura de consentimento informado.

    Para uma adequada observação do intestino delgado são necessárias pelo menos 12 horas de jejum. O seu médico poderá ainda indicar algum tipo de limpeza intestinal  na véspera do exame. A terapêutica com ferro oral poderá ser prejudicial pelo que deverá ser suspensa pelo menos uma semana antes do exame. Não é habitualmente necessário suspender medicamentos anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários.

    Após ingestão da cápsula é fundamental cumprir rigorosamente as indicações fornecidas pelo médico, nomeadamente a alimentação no dia do exame: duas horas após ingestão da cápsula poderá beber líquidos claros e 4 horas depois uma refeição ligeira. Durante o tempo do exame não é necessária a permanência no hospital, o doente poderá caminhar, conduzir e trabalhar, evitando atividades que possam danificar ou deslocar o gravador.

    O exame dura uma média de 8 horas e a cápsula é expulsa algumas horas ou dias depois, não sendo necessária a sua recuperação ou devolução ao hospital, ao contrário do gravador, cuja devolução ao hospital é imprescindível para conclusão do exame.

     

    Existem riscos?

    Os riscos existem em todos os procedimentos médicos. São vários os fatores que aumentam o risco de complicações e estes deverão ser discutidos antes do exame, pesando os riscos e benefícios do mesmo. A endoscopia por cápsula é um procedimento muito seguro, quase sem riscos associados.

    A principal complicação é a cápsula não ser expelida naturalmente, isto é, a retenção da cápsula no tubo digestivo, que pode ser assintomática ou condicionar quadros de oclusão intestinal, com necessidade de intervenção (endoscópica ou cirúrgica) para a sua remoção.  Esta complicação é muito rara e ocorre sobretudo em doentes com patologia conhecida do intestino delgado, com risco de presença de estenoses, como na Doença de Crohn.

    Se a cápsula não for expelida até duas semanas depois, ou apresentar dor abdominal e vómitos após ingestão da cápsula, deverá consultar o seu médico ou o serviço de urgência mais próximo.

    Vómitos com Sangue/ Hematemese

    Vómitos de sangue vivo ou digerido, em “borra de café”, indicativos de hemorragia digestiva alta. Deve motivar avaliação médica urgente e avaliação complementar, nomeadamente com a realização de endoscopia digestiva alta, após avaliação inicial e estabilização hemodinâmica. Ver Hemorragia Digestiva Alta.