A Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) vai realizar, no dia 17 de janeiro, na Figueira da Foz, a sua Reunião Monotemática 2026, este ano dedicada ao tema “Gastrenterologia na Idade Maior”. A escolha reflete uma realidade cada vez mais presente na prática clínica e pretende promover uma reflexão científica e ética sobre os desafios do envelhecimento da população. Alexandra Fernandes, membro da comissão organizadora, explica os objetivos e as mensagens-chave do encontro.
Segundo a médica, o tema surge de forma quase inevitável. “O envelhecimento crescente da nossa população e o impacto direto que este fenómeno tem na prática clínica da Gastrenterologia são uma realidade incontornável”, afirma. Com uma percentagem cada vez maior de doentes idosos, os gastrenterologistas deparam-se com decisões mais complexas, que exigem não só conhecimento técnico atualizado, mas também ponderação ética. “A prática clínica no idoso exige uma profunda reflexão sobre os limites e os objetivos da intervenção médica”, sublinha.
O programa científico foi desenhado para ser transversal às várias áreas da especialidade, da Gastrenterologia à Hepatologia e Endoscopia, sem perder o foco no doente geriátrico. “O maior desafio foi selecionar temas onde a evidência científica é mais escassa para a população idosa, conciliando a profundidade técnica com dilemas éticos como o ‘até quando intervir’”, explica Alexandra Fernandes. O programa vai desde a prevenção e rastreio à gestão de doenças crónicas e agudas complexas, terminando numa reflexão sensível sobre o envelhecimento do próprio médico.
Um dos objetivos centrais da reunião é apoiar os clínicos na tomada de decisões mais ajustadas entre benefício terapêutico, risco e qualidade de vida. “Pretendemos fornecer critérios que vão além da idade cronológica”, refere a especialista. Serão discutidos, entre outros temas, os limites do rastreio e vigilância de condições pré-malignas, a endoscopia avançada, a CPRE, a terapêutica imunossupressora na DII e os tratamentos oncológicos em doentes idosos, muitas vezes com múltiplas comorbilidades.
A multidisciplinaridade assume um papel central no encontro. Para Alexandra Fernandes, “o idoso é um doente complexo por definição”, frequentemente polimedicado e com várias patologias associadas. “Só através de um olhar cruzado conseguimos tratar o doente no seu todo e não apenas a patologia digestiva isolada”, destaca.
O impacto do envelhecimento da população faz-se sentir de forma particularmente marcante em áreas como a Endoscopia, a Doença Inflamatória Intestinal e a patologia hepato-bílio-pancreática. “Há uma necessidade crescente de definir critérios de interrupção de rastreios, mas também de reconhecer os benefícios e riscos de técnicas endoscópicas avançadas menos invasivas do que a cirurgia”, exemplifica.
No final, a comissão organizadora espera que os participantes levem consigo mensagens claras para a prática clínica. “A idade biológica deve sobrepor-se à cronológica”, afirma Alexandra Fernandes, acrescentando que saber quando não iniciar ou quando suspender uma intervenção “é um sinal de perícia e não de negligência”, acrescentando que “reconhecer que o nosso próprio envelhecimento e desgaste profissional também impactam a qualidade dos cuidados que prestamos”.