A literacia em saúde digestiva assume hoje um papel central numa sociedade onde a informação circula à velocidade de um clique, mas nem sempre com o rigor desejável. Compreender o funcionamento do sistema digestivo, reconhecer sinais de alarme e saber quando procurar ajuda médica são competências essenciais para promover a saúde individual e coletiva.
O aparelho digestivo desempenha funções vitais que vão muito além da digestão dos alimentos. Está intimamente ligado ao sistema imunitário, ao metabolismo e até à saúde mental, através do chamado eixo intestino-cérebro. Porém, sintomas como dor abdominal, alterações do trânsito intestinal ou azia persistente são frequentemente desvalorizados ou tratados de forma empírica, sem orientação adequada.
Uma população mais informada tende a adotar comportamentos preventivos, como uma alimentação equilibrada, a redução do consumo de álcool e tabaco e a adesão a programas de rastreio, nomeadamente do cancro colorretal. Por outro lado, reconhece mais facilmente sinais de alerta, como perda de peso inexplicada, sangue nas fezes ou vómitos persistentes, procurando cuidados médicos atempadamente. Este reconhecimento precoce pode ser determinante no prognóstico de várias doenças.
Contudo, a crescente disseminação de desinformação constitui um desafio sério. Nas redes sociais e em múltiplas plataformas digitais, proliferam conteúdos sem base científica que promovem dietas restritivas, “detox milagrosos” ou suplementos sem evidência de benefício. Estas mensagens, muitas vezes apelativas e simplistas, podem levar à adoção de práticas prejudiciais, atrasar diagnósticos e comprometer tratamentos eficazes.
Um dos exemplos mais frequentes é a atribuição sistemática de sangue nas fezes às hemorroidas ou de alterações do trânsito intestinal, como diarreia persistente, a causas benignas. No entanto, estes podem ser sinais precoces de alerta para cancro do cólon ou doença inflamatória intestinal, em que o diagnóstico atempado é determinante para o sucesso do tratamento. A falta de tempo de que todos nos queixamos, aliada à facilidade em obter informação não validada nas plataformas digitais leva ao adiamento da marcação de uma consulta médica, por vezes durante anos, atrasando o diagnóstico de patologias potencialmente fatais.
Perante este cenário, torna-se imperativo investir na promoção da literacia em saúde. Isso implica melhorar o acesso à informação por parte dos profissionais e instituições, bem como capacitar os cidadãos para avaliar criticamente a informação que consomem. Saber distinguir fontes credíveis, como organismos de saúde pública e sociedades científicas, de conteúdos não verificados é hoje uma competência tão importante quanto reconhecer um sintoma.
Os meios de comunicação social desempenham igualmente um papel crucial. Privilegiar informação baseada em evidência e combater a propagação de mitos contribui para uma sociedade mais informada e resiliente à desinformação. A educação para a saúde deve começar cedo, nas escolas, e prolongar-se ao longo da vida, adaptando-se às diferentes literacias e contextos socioculturais.
Promover literacia em saúde digestiva é uma forma concreta de reduzir atrasos no diagnóstico e melhorar prognósticos. Na realidade, trata-se de dar às pessoas as ferramentas necessárias para tomarem decisões informadas e conscientes sobre a sua saúde e prevenirem a doença num mundo saturado de informação fácil e não verificada.
Artigo escrito por Marília Cravo, Presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG)