Daniel Trabulo
Serviço de Gastrenterologia, Hospital da Luz
Não considerar que a obstipação pode englobar um amplo espectro de sintomas
O termo obstipação engloba um amplo espectro de sintomas que variam de um doente para outro. Alguns relatam evacuações infrequentes, outros têm várias evacuações por dia, mas com esforço excessivo e fezes endurecidas, outros relatam fezes amolecidas associadas à sensação de evacuação incompleta. Conhecer os sintomas específicos relatados por cada doente é relevante, pois pode orientar o manejo de cada caso. Quando um doente tem obstipação, devemos perguntar o seu padrão habitual de evacuação (frequência e consistência das fezes) e sintomas e sinais associados, como dor, desconforto, distensão abdominal, esforço evacuatório excessivo, sensação de evacuação incompleta, uso ou não de manobras manuais e tempo prolongado para evacuar. Dados complementares de interesse na anamnese incluem hábitos alimentares, estilo de vida e medicação habitual. Na maioria dos casos, a obstipação não tem uma causa orgânica subjacente e é considerada uma doença funcional.
Critérios de Roma IV para o diagnóstico de obstipação funcional
1. Deve incluir dois ou mais dos seguintes:
2. Fezes amolecidas que raramente estão presentes sem o uso de laxantes
3. Critérios insuficientes para síndrome do intestino irritável
Os critérios devem estar presentes nos últimos 3 meses, com início dos sintomas pelo menos 6 meses antes do diagnóstico.
Não realizar um exame proctológico adequado com toque retal
Uma boa anamnese e exame físico ajudam a identificar o mecanismo etiopatogénico da obstipação, ajudando a decidir se são necessários meios complementares de diagnóstico, como colonoscopia, análises laboratoriais e/ou estudos funcionais. Além da anamnese detalhada, é fundamental fazer um exame físico minucioso. Este deve incluir exame completo do abdómen, inspeção anal e perineal e toque retal.
O toque retal é obrigatório na avaliação de um doente com obstipação e é a ferramenta clínica mais simples e barata disponível para diagnosticar distúrbios anorretais. Através dele, podemos detetar fezes ou sangue na ampola retal e alterações estruturais, como massas anorretais, hemorroidas, prolapso retal e retocelo, que podem desempenhar um papel na obstipação. Além disso, o exame proctológico pode identificar alterações funcionais. A investigação adequada deve ser realizada em repouso e durante a manobra de contração e de evacuação, para identificar alterações como dissinergia defecatória, descida do períneo excessiva ou deficiente, ou outras anomalias estruturais não evidentes em repouso.
Não questionar acerca de medicamentos que causem obstipação
Raramente, os doentes referem espontaneamente a toma de medicação. No entanto, sabe-se que a obstipação é um efeito colateral comum de diversos fármacos (como mencionado em baixo). Não investigar detalhadamente a medicação habitual do doente é um erro crucial. Quando o doente estiver a fazer um medicamento que possa causar obstipação, deve-se considerar reduzir a sua dose ou substituí-lo.
Medicamentos associados à obstipação
Não identificar sinais de alarme
A obstipação é um sintoma comum a várias doenças gastrointestinais e não gastrointestinais. Portanto, mesmo que a obstipação funcional e a obstipação induzida por medicamentos sejam as mais prevalentes, é essencial investigar sinais de alarme que possam sugerir cancro colorretal, que incluem: sangue nas fezes, perda de peso não intencional, alteração recente dos hábitos intestinais, anorexia, anemia, e dor abdominal persistente. Na presença destes sinais de alarme, devem ser realizados exames laboratoriais e colonoscopia total.
Não realizar estudos funcionais
Doentes com diagnóstico de obstipação funcional que não apresentam resposta às medidas iniciais, como alterações do estilo de vida, aumento da ingestão de fibras e uso de laxantes de primeira linha, devem realizar estudos funcionais. Estes exames permitem identificar o mecanismo fisiopatológico subjacente à obstipação, e orientar um tratamento mais direcionado. Entre os principais exames, destacam-se a avaliação do tempo de
trânsito cólico, a manometria anorretal, o teste de expulsão do balão e a defecografia por ressonância magnética.
Ignorar a incontinência fecal como sintoma de obstipação
A incontinência fecal, especialmente sob a forma de perdas involuntárias de fezes líquidas ou semilíquidas, pode ser uma manifestação paradoxal da obstipação crónica, sobretudo em idosos e em doentes institucionalizados. Nestes casos, ocorre frequentemente retenção fecal com incontinência paradoxal. A avaliação clínica deve incluir o exame proctológico com toque retal, que permite identificar impactação fecal e alterações da coordenação anorretal, bem como exames complementares como radiografia abdominal e testes funcionais.
Não considerar doenças não gastrointestinais
A obstipação pode ser manifestação de diversas doenças não gastrointestinais, incluindo patologias neurológicas, metabólicas, endócrinas e sistémicas. Patologias como doença de Parkinson, esclerose múltipla, diabetes mellitus, hipotiroidismo, e outras condições neuromusculares podem cursar com obstipação, que por vezes surge como sintoma inicial. A não valorização destas causas pode atrasar o diagnóstico da doença de base. Assim, uma avaliação clínica abrangente, incluindo exames laboratoriais dirigidos, é fundamental quando há suspeita de etiologia não gastrointestinal.
Utilização indiscriminada e exclusiva de fibras
Embora as fibras, especialmente as solúveis, sejam frequentemente recomendadas no tratamento da obstipação, o seu uso indiscriminado pode ser inadequado. Em alguns doentes, particularmente aqueles com distensão abdominal, flatulência ou síndrome do intestino irritável com predomínio de obstipação, o aumento do consumo de fibras pode agravar os sintomas. Nestes casos, a redução da ingestão de fibras e a utilização de laxantes osmóticos ou outros agentes farmacológicos com melhor tolerabilidade podem resultar em maior benefício clínico. O tratamento deve, portanto, ser individualizado de acordo com a resposta e os sintomas predominantes.
Não considerar a intervenção cirúrgica
A intervenção cirúrgica no tratamento da obstipação deve ser reservada para casos selecionados e refratários às terapêuticas conservadoras, após uma avaliação rigorosa por equipas especializadas. As opções cirúrgicas podem incluir a correção de alterações anatómicas documentadas, como retocelo, prolapso retal ou intussusceção. Em situações excecionais, pode estar recomendada a colectomia em doentes com obstipação grave por trânsito cólico lento, com função anorretal preservada.
A decisão cirúrgica deve ser cuidadosamente ponderada, tendo em conta os riscos, os benefícios e o impacto na qualidade de vida do doente.