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Hepatites Virais: no Caminho tortuoso para a Erradicação

O que são as hepatites virais?

As hepatites virais são infeções do fígado causadas pelos vírus A, B, C, D e E. As hepatites A e E transmitem-se sobretudo através do consumo de água ou alimentos contaminados, podendo a hepatite E estar igualmente associada ao consumo de carne mal cozinhada. As hepatites B, C e D transmitem-se por contacto com sangue contaminado, por relações sexuais desprotegidas ou da mãe para o bebé durante a gravidez ou o parto. As infeções pelos vírus das hepatites B, C e D podem tornar-se crónicas e são estas formas crónicas que representam a maior ameaça para a saúde pública, uma vez que podem progredir para cirrose hepática, insuficiência hepática e cancro do fígado.

Quais os sintomas e quem pode estar infetado?

As hepatites virais são silenciosas, permanecendo assintomáticas durante muitos anos.

Importa sublinhar que as hepatites virais não afetam apenas utilizadores de drogas injetáveis ou homens que têm sexo com homens. Por esse motivo, o rastreio universal é fundamental. Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde recomenda que todos os adultos realizem, pelo menos uma vez na vida, o rastreio para as hepatites B e C.

Um pouco de história e panorama atual das hepatites virais

Poucas áreas da Medicina apresentam uma história de progresso tão extraordinária como a das hepatites virais. O vírus da hepatite B (VHB) foi descoberto há mais de 50 anos por Baruch Blumberg, um feito que lhe valeu o Prémio Nobel da Medicina em 1976. Anos mais tarde, em 1989, foi identificado o vírus da hepatite C (VHC), até então conhecido por hepatite não-A não-B.

Desde então, alcançaram-se avanços notáveis na prevenção, no diagnóstico e no tratamento destas doenças. Atualmente, dispomos de vacinas eficazes contra as hepatites A e B e, em alguns países, contra a hepatite E. Existem também terapêuticas seguras e altamente eficazes que permitem curar a hepatite C e tratamentos capazes de controlar a infeção crónica pelos vírus das hepatites B e D, reduzindo significativamente o risco de complicações. Seria, por isso, expectável estarmos próximos da eliminação destas doenças.

No entanto, a realidade é bem diferente. Estamos ainda muito longe de atingir os objetivos da Organização Mundial da Saúde (OMS) de eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até 2030. Todos os anos ocorrem cerca de 30 milhões de novas infeções pelos vírus das hepatites, aproximadamente 300 milhões de pessoas vivem com infeção crónica e cerca de 1,3 milhões de pessoas morrem anualmente devido às suas complicações. 

Estima-se que apenas 13% das pessoas com infeção crónica pelo vírus da hepatite B e 36% das pessoas com infeção pelo vírus da hepatite C estejam diagnosticadas e, entre estas, muitas continuam sem acesso ao tratamento.

Nunca tivemos tão boas armas para combater as hepatites virais e, paradoxalmente, nunca estivemos tão conscientes da distância que nos separa da sua eliminação.

É, por isso, urgente detetar novos casos. Tal exige uma maior sensibilização da população e da comunidade médica para a importância do rastreio universal, uma aproximação dos cuidados de saúde às populações mais vulneráveis, bem como reforçar as estratégias de vacinação dirigidas aos grupos de maior risco. Por fim, é essencial combater o estigma associado às hepatites virais, que continua a afastar muitas pessoas do diagnóstico e do tratamento.

Neste Dia Mundial das Hepatites Virais, a Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia apela a todos os cidadãos para que realizem o rastreio para a hepatite B e para a hepatite C e confirmem se se encontram vacinados contra as hepatites A e B. Fale com o seu médico e ajude-nos a aproximar-nos da erradicação das hepatites virais.

Artigo escrito por Joana Nunes, Secretária-Geral da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG).