Pesquisa

Erros comuns

Erros no diagnóstico, tratamento e vigilância da Esofagite Eosinofílica

Liliana Santos

Serviço de Gastrenterologia, Unidade Local de Saúde de Amadora/Sintra, EPE

A esofagite eosinofílica (EoE) é uma doença inflamatória crónica imunomediada do esófago, podendo apresentar-se com fenótipo inflamatório ou fibroestenótico. O seu diagnóstico, tratamento e monitorização exigem uma abordagem clínica, endoscópica e histológica, sendo de evitar alguns erros que agravam o prognóstico da doença. [1]

1. Não realizar biópsias esofágicas perante sintomas de disfunção esofágica, mesmo com uma endoscopia digestiva alta sem alterações endoscópicas

A ausência de alterações endoscópicas não exclui EoE. Perante sintomas sugestivos de disfunção esofágica, nomeadamente disfagia ou impactação alimentar, devem ser obtidas biópsias esofágicas mesmo quando a mucosa apresenta aparência normal. Recomenda-se a obtenção de pelo menos seis biópsias, provenientes de pelo menos dois níveis do esófago, habitualmente distal e proximal/médio, para aumentar a sensibilidade diagnóstica. [1,2]

2. Não utilizar uma avaliação endoscópica sistematizada utilizando o EREFS

Nos doentes com suspeita ou diagnóstico de EoE, a endoscopia deve incluir uma avaliação sistematizada utilizando o EREFS (Eosinophilic Esophagitis Endoscopic Reference Score). Este sistema permite documentar e graduar os principais achados endoscópicos da doença, nomeadamente a presença de: edema (E), anéis (R), exsudados (E), sulcos (F) e estenose (S). A utilização sistemática do EREFS melhora a documentação de base e permite uma comparação objetiva entre avaliações subsequentes. [1,3,4]

3. Não discutir com o doente as diferentes opções terapêuticas

Não existe uma estratégia única adequada a todos os doentes, devendo a escolha do tratamento resultar de uma decisão partilhada com o doente, tendo em consideração a gravidade e o fenótipo da doença, comorbilidades, preferências e objetivos do doente, impacto na qualidade de vida e adesão previsível. As opções terapêuticas incluem dieta de eliminação, inibidores da bomba de protões (IBP), corticosteroides tópicos deglutidos e, em doentes selecionados, terapêutica biológica com dupilumab. [1,5]

4. Monitorizar a resposta ao tratamento exclusivamente pela avaliação de sintomas

A melhoria sintomática, isoladamente, não é suficiente para demonstrar remissão da doença, visto que um doente pode apresentar melhoria clínica apesar da persistência de inflamação esofágica. A confirmação da remissão deve ocorrer 8 –12 semanas após o início ou alteração de qualquer terapêutica através da realização de uma endoscopia digestiva alta com biópsias de pelo menos dois níveis do esófago, integrando, assim, achados clínicos, endoscópicos (utilizando o EREFS) e histológicos, com quantificação dos eosinófilos por campo de grande ampliação. [1,3,4]

Pode ser utilizado um limiar histológico de resposta de <15 eosinófilos por campo de grande ampliação, mas este parâmetro deve ser interpretado em conjunto com a evolução dos sintomas, dos achados endoscópicos e de outras características histológicas. [1,6,7]

5. Não tratar uma estenose esofágica quando existe componente fibroestenótico

A presença de estenose esofágica ou de um esófago de calibre reduzido deve ser reconhecida e, quando associada a disfagia, considerada para dilatação endoscópica. A endoscopia digestiva alta pode não ser suficiente para detetar uma estenose moderada (10 a 14 mm) devendo considerar-se nestes casos a realização de trânsito esofágico e/ou planimetria esofágica por impedância para melhor caracterização. A dilatação deve ser individualizada de acordo com o calibre inicial, extensão e características da estenose, sendo particularmente importante uma abordagem progressiva em segmentos muito estreitos. O objetivo é melhorar o calibre do esófago e a disfagia, não é tratar diretamente a inflamação da mucosa. [1,5,8]

6. Realizar dilatação esofágica sem tratar simultaneamente a inflamação subjacente

A dilatação do esófago trata o componente mecânico/fibroestenótico da EoE, mas não controla a inflamação subjacente. Por isso, nos doentes com estenose associada a EoE, a dilatação deve ser integrada numa estratégia terapêutica global, associada a tratamento anti-inflamatório farmacológico e/ou dietético. Esta abordagem visa controlar a atividade inflamatória e reduzir a progressão da remodelação fibroestenótica e a necessidade de dilatações repetidas. [1,5]

7. Alterar a abordagem terapêutica sem confirmar a adesão do doente e sem excluir outras causas de refratariedade

Perante uma resposta inadequada ao tratamento, é fundamental confirmar a adesão do doente à terapêutica, a dose e a correta administração dos fármacos e, quando aplicável, o cumprimento da dieta de eliminação. Na ausência de problemas relacionados com a terapêutica, deverá ser confirmada a persistência de atividade inflamatória através da realização de endoscopia digestiva alta com biópsias esofágicas e avaliação histológica. É igualmente importante excluir a presença de doença fibroestenótica e de outras causas de disfagia. [1,5,6]

8. Não considerar terapêutica com dupilumab nos doentes com EoE não controlada com o tratamento convencional

O dupilumab é um anticorpo monoclonal anti-recetor α da interleucina 4 (IL-4) que bloqueia a atividade das IL-4 e IL-13. Está indicado no tratamento da EoE em adultos, adolescentes e crianças com idade ≥1 ano e peso ≥15 kg que estejam inadequadamente controlados, sejam intolerantes ou não sejam candidatos à terapêutica farmacológica convencional. A decisão deve ser considerada após confirmação objetiva da atividade da doença e avaliação da adesão e da resposta às estratégias previamente utilizadas. [1,7,9]

9. Não explicar ao doente que a EoE é uma doença crónica que requer tratamento de manutenção a longo prazo

A EoE é uma doença inflamatória crónica, com elevada probabilidade de recorrência da atividade inflamatória, endoscópica e histológica após suspensão do tratamento, pelo que este deve ser mantido a longo prazo. O objetivo terapêutico não é apenas o alívio dos sintomas, mas também controlar a inflamação e prevenir a progressão para fibrose esofágica. [1,5]

10. Não manter seguimento regular após obtenção da remissão da doença

A obtenção de remissão clínica e histológica não deve ser interpretada como cura definitiva. A EoE requer seguimento longitudinal, com avaliação clínica regular e reavaliação endoscópica e histológica. O intervalo do seguimento deve ser individualizado de acordo com a terapêutica, gravidade, fenótipo e evolução da doença. [1,6]

Referências bibliográficas

  1. Dellon ES, Muir AB, Katzka DA, Shah SC, Sauer BG, Aceves SS, Furuta GT, Gonsalves N, Hirano I. ACG Clinical Guideline: Diagnosis and Management of Eosinophilic Esophagitis. Am J Gastroenterol. 2025;120(1):31-59. doi:10.14309/ajg.0000000000003194.
  2. Dellon ES, Liacouras CA, Molina-Infante J, Furuta GT, Spergel JM, Zevit N, et al. Updated international consensus diagnostic criteria for eosinophilic esophagitis: Proceedings of the AGREE conference. Gastroenterology. 2018;155(4):1022-1033.e10. doi:10.1053/j.gastro.2018.07.009.
  3. Hirano I, Moy N, Heckman MG, Thomas CS, Gonsalves N, Achem SR. Endoscopic assessment of the oesophageal features of eosinophilic oesophagitis: validation of a novel classification and grading system. Gut. 2013;62(4):489-495. doi:10.1136/gutjnl-2011-301817.
  4. Dellon ES, Cotton CC, Gebhart JH, Higgins LL, Beitia R, Woosley JT, et al. Accuracy of the Eosinophilic Esophagitis Endoscopic Reference Score in Diagnosis and Determining Response to Treatment. Clin Gastroenterol Hepatol. 2016;14(1):31-39. doi:10.1016/j.cgh.2015.08.040.
  5. Hirano I, Chan ES, Rank MA, Sharaf RN, Stollman NH, Stukus DR, et al. AGA Institute and the Joint Task Force on Allergy-Immunology Practice Parameters Clinical Guidelines for the Management of Eosinophilic Esophagitis. Gastroenterology. 2020;158(6):1776-1786. doi:10.1053/j.gastro.2020.02.038.
  6. von Arnim U, Biedermann L, Aceves SS, Bonis PA, Collins MH, Dellon ES, et al. Monitoring Patients With Eosinophilic Esophagitis in Routine Clinical Practice – International Expert Recommendations. Clin Gastroenterol Hepatol. 2023;21(10):2526-2533. doi:10.1016/j.cgh.2022.12.018.
  7. Dellon ES, Rothenberg ME, Collins MH, Hirano I, Chehade M, Bredenoord AJ, et al. Dupilumab in Adults and Adolescents with Eosinophilic Esophagitis. N Engl J Med. 2022;387(25):2317-2330. doi:10.1056/NEJMoa2205982.
  8. Lucendo AJ, Molina-Infante J, Arias Á, von Arnim U, Bredenoord AJ, Bussmann C, et al. Guidelines on eosinophilic esophagitis: evidence-based statements and recommendations for diagnosis and management in children and adults. United European Gastroenterol J. 2017;5(3):335-358. doi:10.1177/2050640616689525.
  9. European Medicines Agency. Dupixent (dupilumab): EPAR – Product information and therapeutic indications.Updated 18 Aug 2026.